Caratê é usado uma vez que instrumento de inclusão em Santo André

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Se o japonês Gichin Funakoshi (1868-1957) estivesse vivo,
certamente estaria orgulhoso das conquistas associadas ao
caratê fora de Okinawa, no Japão, onde ele começou a disseminar
a arte nos anos 1920. Quase um século depois, a essência da
luta corporal, que prega elementos uma vez que disciplina, saudação e
concentração, é usada uma vez que instrumento de inclusão para
facilitar crianças, jovens e adultos de comunidades carentes de
Santo André. 

O responsável pela manutenção da tradição oriental é o sensei
Almir Machado, 57 anos, sendo 44 deles dedicados ao caratê. As
aulas, que começaram no quintal da vivenda dele, no Jardim Bom
Pastor, hoje são realizadas em salão levantado nos fundos do
imóvel. Apesar de humilde e não muito grande, a ateneu[1] Leões
do Karatê é fundamental para, em média, 100 alunos que pagam
preços simbólicos (de R$ 25 a R$ 30) ou recebem os ensinamentos
de graça. “Não uso a arte marcial para lucrar numerário, faço
por paixão mesmo. A gente consegue tirar essas crianças e jovens
da rua e passar esses conceitos de disciplina e saudação, que
são para a vida toda”, diz o funcionário público da Capital.

Aluna há cinco anos, a estudante Giovana Nunes dos Santos, 14,
acredita que a luta faz dela uma pessoa melhor. “Hoje penso em
progredir, fazer faculdade (sonha se tornar cirurgiã na área de
cardiologia). A gente sabe que, se não ocupar a mente, acaba
indo para o caminho incorrecto. Tenho alguns amigos que se
perderam”, lamenta a moradora do Jardim Stella. 

Detentora de um título mundial de caratê, conquistado no ano
pretérito, Giovana é exemplo de superação. Ela é bolsista, já que
a família não tem condições de remunerar as mensalidades. Ano
pretérito, para conseguir os R$ 1.600 necessários para arcar com
as despesas da viagem a Assunção, no Paraguai (inscrição,
passagem, hospedagem e alimentação), foi necessária
força-tarefa envolvendo famílias e amigos. “Valeu a pena. A
gente se sente mais esperançado e estimulada a continuar”,
destaca a tímida tira marrom.

Outra que revela carregar os ensinamentos do sensei Almir por
toda a vida é a estudante Letícia Rodrigues dos Santos, 18,
moradora do Jardim Bom Pastor. Ela, que fez aulas dos 5 aos 9
anos, retomou a luta há dois anos. “Ajuda muito a ter
disciplina. É um desenvolvimento físico e moral, além de
fornecer condições para que eu me defenda”, revela.

Durante estes 20 anos de projeto, sensei Almir estima que, pelo
menos, 500 menores tenham sido impactados pelos ensinamentos
trazidos pelo caratê. “A gente fica orgulhoso em ver que, mesmo
sem incentivo ou ajuda do poder público, conseguimos melhorar a
vida de muita gente. Alguns até seguiram curso nas artes
marciais e se tornaram professores”, conta ele, que também
disseminou a luta entre quatro dos cinco filhos (sendo o mais
novo, Cadu, 12, campeão mundial) e também para a mulher.
“Acredito que todo mundo precisa de três coisas para viver:
família, religião e esporte.”

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