Ele foi ao Japão por causa de Zico e virou garoto-propaganda de perucas

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Depois de passagens por Flamengo (onde foi revelado em 1986),
São Paulo e Grêmio, Alcindo seguiu para o Japão para defender o
Kashima Antlers em 1993, a convite do amigo Zico, com quem
tinha jogado no rubro-negro. E não se arrependeu. Tornou-se
ídolo no país asiático (claro que em menor proporção que o
Galinho) e ficou lá por um bom tempo – cerca de quatro anos.
Neste período, além de jogar futebol, Alcindo arrumou uma
“profissão extra” nada comum. Cabeludo, mas ao mesmo tempo
careca em partes da cabeça, foi convidado para ser
garoto-propaganda de perucas. Inicialmente, a proposta era para
usar o acessório em campo, mas a ideia foi rejeitada por
Alcindo, que gostou da experiência e conseguiu fazer dinheiro
com isso.

Em entrevista ao UOL Esporte, o ex-atacante de
49 anos fala, além da experiência como garoto-propaganda de
perucas, da idolatria que tem por Zico, da hilária história com
terremoto que passou no Japão, do fim de carreira provocado por
lesões e de seu atual emprego: hoje, é fazendeiro de soja na
cidade de São Miguel do Iguaçu, no Paraná.
Confira:

O convite para ir ao Japão. Houve receio?

“Não, primeiro porque quando veio o convite para eu ir, na hora
eu aceitei, porque o Zico é uma pessoa assim: aonde ele vai,
ele vai para cumprir as determinações, ele tenta fazer sempre o
melhor, é uma pessoa séria, então não tem problema, onde ele
vai a gente vai junto, qualquer um quer ir ou quer estar ao
lado dele para o trabalho, e lá eu fui para jogar com ele, fui
para a vaga do Milton Cruz [ex-auxiliar do São Paulo]. Eu
fiquei dois anos no Kashima e depois fui vendido para o Verdy
Kawasaki. Depois eu fui para o time do norte Consadole Sapporo
e de lá, em 96, eu fui para o Corinthians”.

A história da peruca e o apelido curioso no
Japão

Rogerio Assis/Folha Imagem

“No Japão eu fazia propaganda de peruca na televisão, mas
para jogar não tinha peruca, não, eu fazia a propaganda, usava a
peruca, tirava depois que terminava a gravação e jogava normal,
eu tinha aquela carequinha no meio da cabeça. Os caras me
chamavam de careca lá no Japão, me apelidaram de Kappa [criatura
sobrenatural do folclore japonês], depois você procura na
internet e vê o que é [risos], e todo mundo queria tocar na minha
careca quando eu andava na rua, falavam que dava sorte, e saiu o
boneco do Kappa, saiu eu daquele jeito parecido e vendeu bastante
peruca no Japão. Eu fiquei três anos com eles, renovei três anos,
só que não é igual hoje, né? Se fosse fazer um contrato os
valores seriam maiores, mas deu pra ganhar alguma coisa”.

O ‘projeto peruca’ e o conselho de Zico

“Acho que eu estava na sexta ou sétima rodada, eu tinha uns
três meses de Japão, e aí o diretor de marketing me chamou e
falou comigo, este projeto da peruca… Daí eu falei: ‘eu vou
conversar com o Zico para me dar orientação, sugestão’, e eles
queriam que eu jogasse com a peruca, mas isso era outra
empresa, queriam que eu usasse a peruca todos os dias. Aí eu
falei: ‘não, né’, e o Zico falou: ‘vai te tirar toda a sua
característica’, e daí apareceu a outra empresa, aí eu aceitei,
mas da minha maneira, e a empresa estava em segundo lugar em
vendas, comigo ela foi para primeiro lugar [risos], a mídia
veio para cima, foi muito forte, e eu estava fazendo também
bastante gols e o Kashima era uma equipe, na época, considerada
pequena, e nós estávamos em primeiro e segundo lugar no
campeonato, e tudo isso ajudou. A empresa ainda existe, há dois
anos a empresa fez 50 anos e me convidaram, me pagaram
passagens e eu fui para o Japão para a festa deles, porque eu
fui o que mais vendeu lá. Eu não sabia, mas o japonês é muito
vaidoso, fiquei sabendo quando estava lá, muitos deles usam
peruca e a gente não sabe, mas não é que eles são totalmente
carecas, tem uns que têm metade, a peruca é feita para adaptar
para cada pessoa. E não é barato, não”.

Idolatria no Kashima e no Japão

Arquivo pessoal

“Na verdade, no Japão eu sou ídolo japonês. Eu não sou de
uma equipe só. O japonês, no geral, gostava muito de mim, do meu
estilo de futebol, então por onde eu ia as pessoas me
idolatravam. Mas o ídolo maior lá, eu sempre falo, foi o Zico.
Vai ser e dificilmente alguém vai tirar, porque o Zico fez muita
coisa pelo futebol japonês e eu agradeço muito ao Zico por ter me
levado para lá”.

A hilária história do terremoto

“Muito terremoto. Teve um muito engraçado… Lógico que depois
foi engraçado, porque não tem nada de engraçado no terremoto,
mas teve um que a gente estava treinando e estava toda a
torcida assistindo ao treino; aí começou a tremer e de repente
estava todo mundo deitado no chão. Ficaram de pé eu, o Zico, o
Carlos Alberto Santos e o ex-goleiro Abelha [risos], só os
brasileiros, aí nós nos olhamos e deitamos também, até passar o
terremoto [risos]. Isso foi em 93, no primeiro ano que eu
estava lá. Começou a tremer alguns segundos e todo mundo se
jogou no chão, a torcida que estava na arquibancada deitou no
chão e aí nós brasileiros fomos para o chão também, mas já
tinha passado o terremoto [risos]”.

Alcindo = características de Zico + Renato
Gaúcho?

Arquivo pessoal

“Acredito que sim, porque no futebol você vai sempre
aprendendo. Depois que você vai engrenando nas equipes
profissionais, a cada ano você vai aprendendo, e o auge de um
atleta é 23, 24, 25 anos, por aí. Tem alguns que são mais
precoces, casos do Neymar, Messi, são jogadores diferenciados, já
eu atingi isso [auge] com 23 anos. Eu me espelhei no Zico e no
Renato Gaúcho, eu via na televisão e eu achava: ‘poxa, um dia eu
vou ser famoso igual, vou chegar lá’, essas coisas, não cheguei
igual aos caras [risos]. Na verdade, no Flamengo, eu aprendi
muito com o Zico, porque quando eu estava nos juniores o Zico
tinha voltado da Itália e eu subi para o profissional, e a gente
fazia treinos. O Zico treinava no time reserva contra os juniores
porque estava recuperando o joelho depois da Copa do Mundo de 86,
ele me posicionava muito em campo e depois acabamos jogando
juntos na equipe principal do Flamengo, então sempre tinha esse
posicionamento. Depois jogamos juntos no Kashima Antlers, no
Japão, então eu sempre peguei o Zico como um espelho, sempre como
ensinamento. E do Renato Gaúcho eu peguei a velocidade, eu sempre
via e falava: ‘nossa, como o Renato é rápido’. No Flamengo eu
fiquei de 85 a 91: em 85 estava nos juniores e em 86 subi para o
profissional, fui campeão carioca em 86, ganhei a Copa do Brasil
de 90, a Copa União de 87, aí eu fui convocado para a seleção
brasileira de juniores pelo Jair Pereira. Depois a sub-23 com
Renê Simões, fui eleito o melhor jogador amador do Brasil em 87
pela CBF”.

Fim de carreira por conta de lesões

Folhapress

“Eu não cheguei a jogar na Cabofriense [depois do Japão],
eu assinei o contrato e machuquei o joelho de novo, no primeiro
dia de treino, daí eu parei e operei de novo e fiquei quase dois
anos parado. Aí eu comecei a treinar lá no Zico CFZ, joguei no
time dele lá para eu voltar aos poucos, fiquei quase dois anos
com aquele joelho bichado, mas eu não conseguia jogar mais, não,
jogava 20 minutos e uma hora estourava a panturrilha, estourava a
virilha, aí era a coxa, aí eu resolvi parar contra a minha
vontade [risos]. Eu parei em 2000, tinha 32 para 33 anos; dava
para eu jogar mais uns quatro, cinco anos tranquilamente, mas o
problema foi o joelho, não adianta, então o último clube que eu
joguei foi o do Zico, com muito orgulho”.

Hoje é fazendeiro de soja em São Miguel do Iguaçu, no
Paraná

“É o meu ganha pão. Desde quando eu ganhei dinheiro com futebol
eu comprei a fazenda. Daqui uns dias vai começar a colheita, eu
estou de férias agora, mas daqui a uns dez dias começa a
colher. Eu administro, se precisar ajudar, eu ajudo, se
precisar colher porque faltou funcionário, se precisar puxar
com o caminhão eu vou, se precisar colocar a mão na massa eu
coloco, o negócio é meu [risos]. A minha fazenda tem cinco
funcionários, ela é enxuta ela, não é uma fazenda grande, é uma
fazenda pequena, e uma coisa que eu aprendi com o meu pai:
quando você tem um negócio, você vê o final dele; se você não
enxergar o final, então você vai se perder. Não adianta querer
tudo, roubar os outros, enganar os outros, eu aprendi isso. Eu
sou de família muito honesta, o que é meu é meu, o que não é
meu, eu não quero. Isso é de berço, vem de família. Foi o meu
pai que fez tudo na época, comprou, ajeitou, preparou tudo, e
quando eu parei de jogar estava tudo pronto”.

Pretende trabalhar com futebol?

“Eu fui convidado para ser treinador em Foz do Iguaçu, do
futebol feminino, fui treinador e ficamos em terceiro lugar na
Copa do Brasil, em 2015. Eu fiz alguns cursos para
aperfeiçoamento… É muita gente, é cobra comendo cobra, então
prefiro cuidar do que é meu lá na fazenda, tranquilo, que é
mais seguro para mim no momento do que você arriscar uma coisa
que você não sabe se vai conseguir. E não depende de mim,
depende das pessoas quererem, então sempre pensei nisso”.

Homens x mulheres no futebol

“Muito diferente, o que você mandar fazer, elas fazem, sem
muita boquinha, não tem nhé nhé nhé. Elas são determinadas,
querem aprender, enquanto jogadores de futebol, muitos que
estão jogando não jogam porcaria nenhuma e acham que sabem
tudo, que são craques”.

Ele foi ao Japão por causa de Zico e virou garoto-propaganda de perucas
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