Favela e choro. Bielsa teve uma “final para esquecer” contra o SP em 1992

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Um dos técnicos mais folclóricos e respeitados do futebol
atual, Marcelo “El Loco” Bielsa viveu um dos seus
primeiros grandes momentos como treinador no vice-campeonato da
Copa Libertadores de 1992. Comandando o Newell’s Old Boys,
ele passou por diversas situações para apagar da memória nos
momentos que antecederam a partida e também durante o jogo
daquele dia 17 de junho, que terminou com vitória brasileira
por 1 a 0. 

Três momentos podem ser considerados como marcantes naquela
decisão, seja por servir como combustível para o São Paulo ou
para tirar Bielsa do sério. Confira abaixo três histórias
de bastidores daquela decisão, que completa 25 anos neste
sábado:

A LUZ NA FAVELA
O São Paulo foi impedido pelo Newell’s de fazer o
reconhecimento do gramado do Gigante de Arroyito, palco da
primeira decisão da Libertadores. O fato
irritou Telê Santana e, principalmente, os dirigentes
do Tricolor. Uma semana depois, os cartolas foram surpreendidos
por gritaria no Morumbi. Era o técnico
Marcelo Bielsa e seus jogadores indignados pelo fato
do estádio estar às escuras no horário em que estava marcado o
treino argentino. Kalef João Francisco lembrou-se do
veto ma semana anterior e decidiu retribuir: “Falei que não
seria possível ligar os refletores, pois o funcionário
responsável já tinha ido embora. Bielsa se irritou,
queria que chamássemos o rapaz de volta. Disse que ele morava
na favela, que ninguém poderia ir até lá. Bielsa saiu
andando e gritando que iria até a favela buscá-lo (risos)”.

AS LÁGRIMAS DO LOCO BIELSA
O vestiário do derrotado Newell’s no Morumbi teve
choro desconsolado e uma ameaça de quebra-quebra – e tudo vindo
da mesma pessoa, o técnico “Loco” Bielsa. “Ele nem
conseguia falar. Berrava e ninguém entendia nada. Eu nunca
estive em um vestiário tão triste. Você sabe o que é ver
o Bielsa neste estado de descontrole? Ele parecia um
elefante chorando”, relembra o
zagueiro Pocchetino. Bielsa é famoso na
Argentina pela frase “eu seria capaz de dar um dedo para
vencer um clássico”, e seu jeito extremo de viver o futebol de
fato atrapalhou o Newell’s naquela decisão. Ele foi
expulso aos 33 do segundo tempo e pouco pôde motivar o elenco
antes dos penais. Telê foi o seu oposto – sempre
sereno e sem expressar reações nem com a conquista
sacramentada.

PÔSTER PÉ-FRIO PREJUDICOU O NEWELL’S

Reprodução

Pôster com a equipe
argentina como campeã
 
Muito antes de torcedores do Palmeiras reclamarem de pôster do
Santos campeão antes da segunda final da Copa do Brasil de 2015,
o São Paulo passou pelo mesmo em 1992. Após perder o jogo de ida
para o Newell’s em Rosário, o então diretor de
futebol Kalef João Francisco ainda teve o desprazer de
se deparar com um pôster da equipe argentina posando para foto e
a inscrição abaixo: “Campeão da América 1992”. O que, de
imediato, causou revolta acabou sendo uma arma do dirigente para
motivar os atletas. Antes da partida de volta no Morumbi, cada
jogador pôde ver o material, deixando o vestiário
inflamado. Kalef guarda o pôster até hoje: “Acho que
nunca tinha mostrado para ninguém, foi uma história que ficou
guardada para mim. É um troféu”.

Legado: a “vingança” de Bielsa anos depois

Se não levou aquele título, Bielsa, pelo menos, pode se
orgulhar de ter deixado um legado em seus jogadores após aquela
decisão. Afinal, viu nove dos 13 jogadores que
utilizou nas duas decisões tornarem-se técnicos, como
discípulos de seu trabalho. A lista tem como mais famosos
Gerardo Tata Martino, ex-comandante da seleção argentina e do
Barcelona, Mauricio Pochettino, atual treinador
do Tottenham, e Eduardo Berizzo, recém-contratado
pelo Sevilla. Os outros são Julio
Zamora, Cristian Domizzi, Gustavo Raggio,
Alfredo Berti, Ricardo Lunari, Juan
Manuel Llop e Fernando Gamboa. 

Comparando com o destino dos jogadores do São Paulo naquela
decisão, pode-se dizer que a influência de Bielsa foi
mais forte que a de Telê Santana. Dos campeões com o
São Paulo, apenas cinco se aventuraram no banco de
reservas: Müller, Palhinha e Zetti já não
exercem mais a função, enquanto Pintado é atual auxiliar de
Rogério Ceni no São Paulo e Antônio
Carlos Zago deixou o Internacional recentemente.

* Colaborou Tales Torraga, do blog Patadas
y Gambetas

Favela e choro. Bielsa teve uma “final para esquecer” contra o SP em 1992
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