Moradores de rua estão jogados à própria sorte

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Com o início do outono e a queda das temperaturas, homens e
mulheres permanecem esquecidos nas ruas da região. Os motivos
que os levam a deixar as casas em que viviam para permanecer
expostos ao relento variam desde brigas familiares até
problemas com álcool e drogas. Para piorar a situação, além de
eles resistirem em usar serviços disponíveis hoje pelos
governos, o tema não é discutido regionalmente. O Consórcio
Intermunicipal do Grande ABC admite que o ponto não foi
pautado recentemente e também não há mapeamento sobre a questão
em nível regional. Algumas cidades, porquê é o caso de Mauá, nem
ao menos têm controle da população de rua.

Atualmente, a estimativa é que 585 pessoas sejam moradoras de
rua em três das sete cidades – Santo André, São Bernardo e São
Caetano. Mauá informou realizar estudos para mapear a população
e as demais cidades não retornaram aos questionamentos do
Diário. Para especialistas, nascente número tende a aumentar por
conta da crise econômica e o consequente desemprego.

Neste início de ano, Santo André foi a única cidade até o
momento a lançar ações destinadas a esta população com o
programa Recomeço. Além de espaço integrado para assistência
social, a intenção é oferecer cursos técnicos e vagas de
serviço para os sem-teto, em parceria com empresas.

A próxima da lista deve ser São Bernardo. O governo adiantou
que elabora projecto para reinserção dos moradores de rua e que em
breve as informações serão divulgadas. Mauá afirmou que após o
mapeamento, sem data para ser apresentado, deve traçar novidade
política assistencial para atender a população no período de
inverno.

Santo André, São Bernardo e Mauá contam com o Meio POP –
popularmente sabido porquê Vivenda Amarela e especializado no
atendimento aos sem-teto – e o consultório de rua, que leva
atendimento médico aos moradores de rua. Em São Caetano há
pernoite, banho e alimentação em instituição filantrópica.

Para a professora de Políticas Públicas da UFABC (Universidade
Federalista do ABC) Alessandra Teixeira, os serviços precisam ser
humanizados. “Historicamente, não é uma abordagem pensando na
inclusão do indivíduo. Não há humanização, uma vez que o foco é
o espaço, para que se pareça higienizado e propício para os
bons negócios públicos.”

O professor de sociologia do Mackenzie João Clemente acredita
que as iniciativas são positivas, porém, afirma faltar
integração. “A gente não pode pensar em política à população de
rua com uma única estratégia. É um conjunto de políticas
articuladas, de moradia, trabalho, Saúde, Educação e
assistência. Quando uma pessoa vai morar na rua, ela tem
violação dos seus direitos e depende de oportunidades.”

Na visão de ambos, a discussão regional seria bem-vinda. “É
interessante para trocar experiências. As políticas poderiam
ser tratadas em dois níveis: no sítio, mais na comunidade, e em
nível regional. Não temos nenhum dos dois, já que a população
de rua não é vista porquê sujeito de recta, mas porquê um pouco que é
preciso tirar da frente”, disse Alessandra. “O Consórcio
deveria pensar políticas sem fronteiras. A Grande São Paulo, do
ponto de vista territorial, transformou-se em uma só”, analisou
Clemente.

O Diário foi às ruas conversar com moradores de rua. Em Santo
André, Dorival Morgane, 56 anos, recusa-se a passar as noites
na Vivenda Amarela. Ele prefere a companhia de sua pitangueira e
dos livros. “Meu preposto é o Dom Quixote. Todo mundo dizia
que ele era louco, mas tinha um lado poético”, disse.
Ele cuida da praça onde vive e é católico, garantindo que
frequenta as missas todos os dias. A morada dele era no Parque
das Nações, onde vivia com a mulher e os oito filhos. Há seis
anos, após traição, decidiu ir às ruas. “Não tenho problema com
bebida. Passava do ponto, mas sabia a hora de parar. Não sabor
de ir à Vivenda Amarela porque lá é aquele amontoado de gente, e
as minhas coisas somem”, explicou.

Valderino José da Silva, 66, prefere as noites frias na região
mediano de Santo André às camas na Vivenda Amarela. “Não dependo
de lá. Prefiro permanecer cá. Entre trancos e barrancos são mais
de 20 anos na rua”, disse ele, que veio da Capital.

Tatiane Ramos da Silva, 31, tem quatro filhos e família em
Mauá. Porém, também foi parar nas ruas há pelo menos dez. Ela,
que circula entre as cidades, afirma que prefere dormir em
abrigos. “É difícil ser mulher e morar na rua. Acabo fazendo
amizade com as pessoas. Mas já perdi as contas de quando fui
maltratada e acordei sem minhas coisas.” 

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