O presente de Natal? Dias melhores

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Quando se fala em Natal, além do promanação de Jesus para
os cristãos, o que vem à cabeça é a tradicional cena da família
reunida em volta de mesa farta, além da troca de presentes. No
entanto, parcela significativa de moradores das sete cidades
não tem oportunidade de usufruir de celebração na companhia de
familiares, tampouco da abundância de mantimentos ou de mimos.
Para essas pessoas, a sarau ocidental é somente mais um dia
generalidade.

Elenir Laurice Elias Valentim, 72 anos, vive sozinha em humilde
lar de três cômodos na Vila Moraes, em São Bernardo. As
companhias diárias da dona de lar são as bonecas que ela
coleciona. Itens que, quando criança, não teve a oportunidade
de ter. “Desde os 7 anos eu trabalhava abrindo poço com meu pai
e ele não me deixava recrear. Fui ter boneca depois de velha”,
conta.

Dos dois filhos que teve, somente um está vivo e ela não vê há
mais de dez anos. “Ele mora no Mato Grosso e manda recado
dizendo que não esqueceu de mim e que virá me ver quando tiver
condições”, diz dona Elenir. Um irmão, que mora em Embu-Guaçu,
na Região Metropolitana, a visitante também quando pode.

Com a saúde debilitada por problemas na tireoide, dona Elenir
afirma que se acostumou à solidão, mas confessa que, às vezes,
bate tristeza. “Aí, fico quieta e passa tudo”, revela. Uma
forma de se distrair é trespassar diariamente em procura de latas de
alumínio descartadas. Com a venda dos itens para reciclagem,
ela consegue quantia para complementar a aposentadoria e
permitir a compra de mantimentos básicos, além dos variados
remédios. Hoje, inclusive, a idosa pretende passar o Natal à
procura de latinhas usadas. O presente que ela deseja lucrar
nesta data não é material. “Quero ter saúde, pois quem tem isso
tem tudo na vida.”

ESPERANÇA

A difícil situação enfrentada ano a ano pela família de
Alexandra Araújo da Silva de Souza, 38, do Parque Miami, em
Santo André, agravou-se com o desemprego que atingiu os chefes
da lar neste ano. O parelha e cinco filhos (o sexto, mais velho,
de 22, mora com a avó paterna, no mesmo bairro) vivem com R$
1.760 por mês. Secção da verba vem do seguro-desemprego de
Alexandra (que acaba em fevereiro) e outra parcela, da pensão
que a mãe recebe em razão da morte da filha, que partiu em
2013, aos 19, vítima de tumor no cérebro.

“Com o quantia, compro bastante arroz, feijão, óleo, açúcar,
leite e fraldas (para o caçula, de 10 meses). Mistura, só
quando dá. Se quebra um chinelo, põe prego. Se corta o cabelo
de um fruto, o outro tem de esperar mais um pouco”, relata
Alexandra.

Diferentemente de grande segmento das crianças e adolescentes que
hoje tem oportunidade de penetrar seus presentes de Natal, os
filhos de Alexandra fazem ‘bicos’ para comprar o que desejam.
Gabriele, 12, cuida do fruto de uma vizinha. Nicolas, 17, procura
crianças no ponto de ônibus na volta da escola. “Com o quantia
que recebem, eles compram roupas e sapatos. Dói não ter
condições de dar as coisas, mas é o mundo em que a gente vive”,
desabafa a mãe.

Entre os principais desejos natalinos da matriarca estão
ofício para ela, para o marido e para o fruto primogênito,
além do conserto do telhado de sua lar tendo em vista que a
residência alaga quando chove. “A gente levanta todo dia
acreditando que amanhã será melhor do que hoje”, confia
Alexandra.

O Natal da família Souza não tem ceia, nem presentes, mas conta
com a essência da data: a união. “Não é só nesta época do ano
que a gente deve estar junto. A sossego com o próximo deve ser todo
dia”, destaca a matriarca.

“Não temos condições de comprar nem um frango para cear”,
lamenta a facilitar de limpeza Maria Ivoneide Gomes de Souza,
47, moradora do Jardim Oratório, em Mauá. Se não há verba para
a ceia, menos ainda para presentear as crianças. No entanto, os
pequenos já compreendem. Uma das netas, Milena, 8, diz que não
fica triste com a situação. “Sei que um dia vou lucrar. Se eu
pedir para Deus Ele me ajuda”, crê.

Já por segmento dos adultos, o principal pedido ao Bom Velhinho
está relacionado a melhores condições de vida. Isso porque o
barraco que pertencia a Maria Ivoneide, de somente três cômodos,
ela cedeu para duas filhas, um genro (o único que está
trabalhando, no momento) e cinco netos. A facilitar de limpeza
se instalou em outro cômodo nas proximidades, para continuar ao
lado do clã.

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