Os bailes do Palácio de Mármore na cidade industrial

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Os bailes do Palácio de Mármore na cidade industrial: o Moinho São Jorge e o patrimônio industrial de Santo André (1950-2000) (Parte 1)Os bailes do Palácio de Mármore na cidade industrial: o Moinho São Jorge e o patrimônio industrial de Santo André (1950-2000) (Parte 1)

1.Introdução

Nos anos 1990, com a intensa reestruturação produtiva caracterizada por mudanças tecnológicas e organizacionais e com a desconcentração industrial no território brasileiro, a cidade de Santo André, como outras cidades que tiveram crescimento marcante na segunda metade do século XX marcado pelo desenvolvimento de seu parque industrial, sofreu com a queda da arrecadação de impostos e o crescente desemprego. A paisagem das fábricas em pleno funcionamento é substituída por grandes áreas de galpões subutilizados, abandonados e degradados pela ação do tempo. Esse retrato pode ser observado ao longo do vale do Rio Tamanduateí, onde se localizam a Avenida Industrial, os trilhos da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí e a Avenida dos Estados, que liga o centro de São Paulo à cidade de Mauá, passando por São Caetano do Sul e Santo André.

Diante desse quadro, o governo municipal andreense procurou responder às novas demandas com um projeto de revitalização da cidade chamado Projeto Eixo Tamanduatehy.

No espaço delimitado para a implantação desse projeto, está localizada a indústria de farinha de trigo Moinho São Jorge, que se instalou no município de Santo André em 1951 com uma característica diferenciada em relação a outros edifícios industriais: no mesmo edifício em que estavam os moinhos, foi construído um grande salão de festas, no último andar, decorado com mármore, e recebendo assim o nome de Palácio de Mármore. Esse salão foi um espaço destinado a bailes e jantares oferecidos a diferentes grupos sociais da região. Na década de 1960, o Moinho São Jorge exerceu, portanto, outro papel que não só o da produção industrial, mas o de promotor de divertimento e lazer e, por esse motivo, permaneceu pulsante na lembrança das pessoas da região. Muitos dos moradores do Grande ABC lembram-se das festas que freqüentaram no Palácio de Mármore e contam suas experiências com emoção e saudades daquele “bom tempo” de suas vidas. Essas lembranças demonstram quanto significativo foram esses eventos, o que levou o nosso interesse pela importância desse salão para o entretenimento e lazer na cidade industrial.

Tendo em vista o fascínio exercido pelo Palácio de Mármore do Moinho São Jorge, pergunta-se: por que uma fábrica de farinha construiu um salão de baile no seu pavimento superior? Como eram esses bailes? A quem se destinavam as festas? Quem freqüentava o Palácio de Mármore? A iniciativa de promover esse tipo de entretenimento estava inserida nas intenções dos gestores da fábrica, como parte de seu modelo de gestão de recursos humanos? Ou era uma estratégia para demarcar a influência política de seus proprietários em relação à dinâmica da cidade?

Atualmente, pesquisadores e pesquisadoras de diversas áreas do conhecimento preocupam-se com o patrimônio industrial que diferentes comunidades de empresários e trabalhadores edificaram no Brasil, ao longo do último século. As transformações no mundo industrial, ao final do século XX, geraram mudanças significativas nas formas de produzir, gerir e trabalhar, o que vem repercutindo em uma relação entre passado e presente.

Pautado nessa perspectiva de valorização do patrimônio industrial na região do ABC, esse texto volta-se para as relações entre indústria, lazer e memória. Tem como foco o tema do lazer e do entretenimento como uma das construções patrimoniais da sociedade industrial. O Palácio de Mármore do Moinho São Jorge representa um caso em que tais relações se conjugam. Dessa forma, propõe-se com esse artigo, apontar as relações existentes entre industrialização e lazer no ABC no período de 1950/60, tomando como ponto de partida as lembranças das pessoas que viveram à época.

Pretende-se, ao longo do desenvolvimento do artigo, identificar como a empresa promovia o Palácio de Mármore entre suas ações e estratégias, re-significar o local e seus eventos do ponto de vista de diferentes pessoas que nele tiveram alguma experiência de vida e, por fim, discutir algumas possibilidades de recuperação do patrimônio industrial local, a partir do caso do Palácio de Mármore do Moinho São Jorge.

Para tanto, partiu-se de uma pesquisa do tipo explicativa, pois se tem a preocupação de identificar os fatores que contribuem para ocorrência dos fenômenos, a fim de analisar e interpretar o papel do Palácio de Mármore no contexto industrial e de lazer na cidade. Dados foram buscados em entrevistas de histórias de vida com moradores do ABC nas décadas de 1950/60, conjugando-se, ainda, uma pesquisa documental em periódicos e na internet, bem como pesquisa bibliográfica.

Ao mesmo tempo, foram utilizados métodos que recuperam as lembranças das pessoas, associados à pesquisa bibliográfica e documental, por meio de entrevistas realizadas pelo Núcleo de Memórias do ABC, núcleo da Universidade Municipal de São Caetano do Sul que, desde 2003, realiza a pesquisa da memória social da região do ABC por meio de entrevistas gravadas sob os métodos da história oral, constituída por um conjunto sistemático, diversificado e articulado de depoimentos em torno de um tema. A especificidade da história oral possibilita analisar diversas abordagens e mover-se num terreno multidisciplinar, um dos principais motivos para a opção por um estudo de memória. As entrevistas aqui analisadas foram gravadas em áudio e em vídeo e, em seguida, transcritas, no Núcleo de Pesquisadores de Memórias do ABC, na Universidade Municipal de São Caetano do Sul – USCS e estão arquivadas no HiperMemo – Acervo Hipermídia de Memórias do ABC. Outros depoimentos também foram consultados no portal Museu da Pessoa.Net.

2.Projeto Eixo Tamanduatehy e o Moinho São Jorge

Em 1999, foi concebido o Projeto Eixo Tamanduatehy, que prevê a requalificação urbana da faixa de 12,8 km² ao longo das Avenidas dos Estados e Industrial e da Estrada de Ferro, pertencentes à cidade de Santo André. As diretrizes do projeto contemplavam a ampliação do espaço público e das áreas verdes, uma nova malha de ruas e avenidas, inclusão social por meio da transformação das favelas em bairros e a constituição de uma nova centralidade regional.

É importante mencionar duas das estratégias previstas no Projeto Eixo Tamanduatehy para a discussão aqui proposta no campo do Patrimônio Industrial e da Memória. A primeira é a “convivência com a indústria”:

“Preservação das melhores condições possíveis de permanência das grandes indústrias ainda existentes no Eixo Tamanduatehy, como geradoras de alto valor adicionado e de emprego, assegurando-lhes condições favoráveis de viário para movimentação de cargas, compartilhamento de outros usos na vizinhança imediata, possibilitando a instalação de usos complementares e adaptações edilícias em suas plantas e adequação do novo desenho urbano e arquitetura industrial pré-existente, bem como acolhimento de iniciativas de reaproveitamento de parcelas de suas instalações para operações urbanas” (PMSA, 1999).

A outra estratégia é a “mistura de classes sociais”:

“Assegurar no Eixo Tamanduatehy a convivência territorial dos diversos níveis de renda, pela presença conjunta de grupos sociais distintos nos espaços públicos, pela oferta pública de cultura, lazer e entretenimento, pela permeabilidade dos locais privados de uso público, pela mistura de usos e pela presença de moradores de diferentes condições sociais /…/” (PMSA, 1999).

Desde o início da implantação do projeto, vários empreendimentos se desenvolveram nessa área, principalmente no setor terciário, por meio de parcerias e operações urbanas em conjunto entre os agentes públicos e os empreendedores privados. Atualmente, já se verifica os primeiros resultados dessa mudança na paisagem urbana nesse corredor ao longo do Rio Tamanduateí.

Este projeto foi apresentado publicamente em 17 de abril de 1999, no Palácio de Mármore, salão de festas do Moinho São Jorge, localizado no centro desse eixo, à Av. dos Estados 1.171. O Moinho São Jorge é uma das poucas fábricas que resistiu à reestruturação produtiva e desconcentração industrial, mantendo suas atividades produtivas no local. No entanto, hoje, está rodeado de galpões abandonados ou que foram reutilizados para outras finalidades que não a industrial, o que constituía uma das estratégias do Projeto Eixo Tamanduatehy [1]. Seus produtos, os derivados de trigo, como as farinhas e massas, se diferem da produção das demais fábricas remanescentes ao longo desse eixo, com exceção do vizinho Moinho Santo André. O Moinho São Jorge é a principal empresa do grupo Indústrias Reunidas São Jorge, de característica familiar, que é composta de iniciativas nos setores de laticínios, fiação, tecelagem, transportes, máquinas e agências de turismo (FONSECA, 1987).

Localizado no oitavo andar, com vista panorâmica, o salão possuía cinco mil metros quadrados e as paredes eram revestidas em mármore rosa de Carrara, importado da Itália. O local tinha capacidade para mais de 1200 pessoas. Foi inaugurado em setembro de 1959 (FONSECA, 1987) e desativado em 1978, com a morte de Antonio Adib Chammas, fundador e presidente do Moinho (PEARCE, 1990). Voltou a ser objeto de atenção no evento de apresentação do Projeto Eixo Tamanduatehy. Cerca de três décadas depois, o Palácio de Mármore era reaberto para a comunidade local, extasiando de saudade aqueles que, no passado, freqüentaram suas luxuosas festas, bem como deixando surpresos aqueles que adentravam o Palácio pela primeira vez.

Autor: https://www.facebook.com/andre.luizzovico?fref=photo

3.Narrativas orais e histórias de vida

O método da história oral serve como instrumento para colher informações factuais, desde que delas possa emergir uma visão de mundo. Ou seja, a história oral é um método de pesquisa que utiliza a técnica da entrevista e os depoimentos pessoais orais, no registro de narrativas da experiência de vida. A história oral é considerada tanto técnica quanto fonte, por meio da qual se produz conhecimento (FREITAS, 2002). Esse registro permite a documentação de pontos de vista diferentes ou antagônicos sobre o mesmo fato, os quais estariam condenados ao esquecimento se omitidos ou desprezados por outros discursos. Dessa forma dá voz a quem não se faria ouvir, fazendo-os reconhecerem-se como sujeitos da ação e possibilitando o conhecimento de diferentes “versões” sobre determinada questão.

O método de “história oral de vida” garante à pesquisa rigor, fidedignidade e riqueza dos depoimentos coletados. Não se conta, com isso, conceber as entrevistas como “simples suporte documental” da pesquisa social e histórica; acredita-se na riqueza inesgotável do depoimento oral em si mesmo, como fonte não apenas informativa, mas também:

“/…/ como instrumento de compreensão mais ampla e globalizante do significado da ação humana; de suas relações com a sociedade organizada, com as redes de sociabilidade, com o poder e o contra-poder existentes, e com os processos macro culturais que constituem o ambiente dentro do qual se movem os atores” (ALBERTI, 1990, p.8).

A partir dos depoimentos aqui estudados foi possível pensar as condições sociais, culturais e cotidianas, narradas pelo “cidadão comum”, ou seja, por agentes da história que não foram mitificados ou transformados em “grandes homens”, “heróis” ou pessoas públicas e famosas.

4.O Palácio de Mármore: patrimônio industrial e memória

A partir da intensa reestruturação produtiva que marcou a região do Grande ABC nos anos 1990, constituída por significativas mudanças tecnológicas, sociais, comunicacionais, urbanas e administrativas, vem à tona o contínuo processo de fechamento ou transferência de fábricas como um dos principais fatores de preocupação relacionado ao desenvolvimento regional. Tal processo tem sido pensado nas relações que o presente e o passado estabelecem em torno das explicações das transformações locais, justificando-se as perspectivas teóricas que a memória social possibilita como método de análise.

O Moinho São Jorge permanece localizado numa área em que a desindustrialização é visível e que galpões de antigas fábricas foram reapropriados como uma das estratégias de revitalização da cidade. Assim, um estudo sobre essa empresa, a partir das ações empreendidas no Palácio de Mármore, pode explicar questões acerca do desenvolvimento urbano e econômico da região, bem como a permanência de certas fábricas no mesmo local.

A pesquisa sobre o resgate da memória dos moradores da cidade passa necessariamente pelo trabalho e, consequentemente, pela sua relação com a indústria, uma vez que Santo André pautou seu desenvolvimento no setor secundário da economia. Mais do que isso, a cidade de Santo André foi um dos mais importantes pólos de organização de trabalhadores e trabalhadoras, visto estar inserida na região metropolitana de São Paulo e, especificamente, na região do Grande ABC, que é o terceiro centro econômico do país.

Não se pode negar a importância do patrimônio industrial e da memória numa cidade como Santo André, com seus 670 mil habitantes, pois se desenvolveu em torno das indústrias instaladas desde 1867, com a construção pelos ingleses da ferrovia ligando Jundiaí ao Porto de Santos. Seu desenvolvimento industrial se intensificou após a II Guerra Mundial no período de industrialização por substituição das importações.

Nesse sentido, o Moinho São Jorge apresenta potencialidades de inventários, de registro, de pesquisas histórico-documentais e iconográficas, de entrevistas, de análise arquitetônica, da inserção na cidade, da forma de ligação com os variados setores da sociedade, de transformação no decorrer do tempo e das formas de recepção e percepção. Estas potencialidades despertaram o interesse para esse artigo, em que se discute determinadas manifestações sociais e culturais com o intuito de registrar, revelar, preservar e valorizá-las. Seu Palácio de Mármore é um patrimônio com importante valor arquitetônico, representando uma fase do desenvolvimento industrial brasileiro e, também, suas relações culturais e afetivas com as comunidades que o circundam.

O patrimônio industrial do Moinho São Jorge representa o testemunho de atividades que tiveram e que ainda têm profundas conseqüências históricas, revestido de um valor social como parte do registro de vida dos homens e mulheres comuns e, como tal, conferindo-lhes um importante sentimento de identidade. Na história da indústria, apresentou, também, valor científico e tecnológico, para além de um valor estético, visualizado em sua arquitetura, design e concepção.

Esses valores são intrínsecos aos próprios sítios industriais, às suas estruturas, aos seus elementos constitutivos, à sua maquinaria, à sua paisagem industrial, à sua documentação e também aos registros intangíveis contidos na memória das pessoas e das suas tradições.

Em uma reportagem, de 1991, o Moinho São Jorge foi apresentado como o maior moinho do país. Naquele ano, sua produção mensal era de 40 mil toneladas e faturamento mensal de US$ 10 milhões. Foi o responsável pela primeira importação de trigo, de 30 mil toneladas dos EUA, pois, até novembro de 1990, a importação e a comercialização do trigo eram exclusividades do governo federal (FOLHA, 1991). É inegável, por estes dados, o relevante papel econômico que esta empresa representou para a cidade. Esta condição, por si só, coloca o Moinho São Jorge como objeto de estudo no campo do patrimônio industrial.

O início das pesquisas e desenvolvimento de teorias a respeito de patrimônio industrial ocorreu na década de 1960, inicialmente na Inglaterra. Desde então o conceito de patrimônio industrial tem se ampliado, de acordo com Leonardo Mello e Silva:

“Ele não se limita apenas a um conjunto de bens arquitetônicos ou sítios cheios de objetos e partes de objetos interessantes. Uma vez que se detém sobre máquinas, equipamentos, instalações e imóveis onde se processou a produção industrial, o Patrimônio Industrial é também a recolha e o tratamento de um patrimônio técnico de uma sociedade e de uma comunidade, e esse processo está sempre em transformação. Nesse sentido, o patrimônio industrial permite a elucidação da transmissão de um saber técnico. Ele permite estabelecer, hoje, um elo entre as formas de produzir – o que envolve homens/mulheres e máquinas – e a cultura” (MELLO E SILVA, 2006, p.1).

Paradoxalmente, na cidade industrial, não é pelo fator econômico ou pela transmissão de um saber técnico que o Moinho São Jorge é lembrado pelas pessoas, mas sim pelo o que proporcionou nos momentos de “não-trabalho”. Isto é, ele é lembrado pelos momentos de lazer e entretenimento proporcionados pelo seu salão de bailes, o Palácio de Mármore.

Assim, o Palácio de Mármore representa para o campo de estudo do Patrimônio Industrial algo que vai além da importância dos vestígios que englobam o processo de produção industrial, com suas estruturas e infra-estruturas. Ele interessa como local onde se desenvolveram atividades sociais relacionadas com a indústria. Como cita o documento do Comitê Internacional para a Conservação do Patrimônio Industrial – TICCIH [2], este locais poderiam ter sido habitações, locais de culto ou de educação (EVANGELISTA, 2006). Neste caso, podem ser acrescentados os locais de lazer e entretenimento.

O patrimônio industrial situa-se em um campo de investigação em processo e não se restringe apenas ao conhecimento arquitetônico. É essencialmente multidisciplinar, principalmente ao estabelecer a ligação do componente material (prédio, máquina) ao componente humano (trabalho). As áreas do conhecimento como antropologia, história, sociologia e administração iluminam o entendimento das relações estabelecidas entre o modo de vida dos operários, dos patrões, das pessoas do entorno da fábrica e das elites políticas da localidade onde se estabeleceu a indústria (VICHNEWSKI, 2004 a/b).

É por isto que, nesta concepção multidisciplinar, as investigações a respeito do patrimônio industrial somam-se às contribuições advindas do campo de estudo da memória. É da organização da memória de um fato, lugar e/ou época que se obtêm elementos para a construção da identidade e para o entendimento do desenvolvimento de determinada região, por meio da valorização de sua cultura e de sua história. O tempo e o espaço são variáveis fundamentais na atuação da memória e esta, por sua vez, tem um papel fundamental no processo de representação.

A memória se faz condição de conhecimento do novo acontecer, determinante de sentido que não esgota o real em sucessão, mas se apresenta como laço em meio a tantas rupturas (ALVES, 1999, p.78).

5.Bailes – lembranças e reflexões

Para ilustração de como as indústrias da cidade tinham estreita relação com o modo de vida da população, é que se observa como os locais de lazer e sociabilidade, proporcionados pelos clubes destas indústrias, ficaram na memória das pessoas, principalmente os bailes. Um exemplo é o depoimento da Professora Maria Amélia Ferreira Perazzo:

Mais tarde veio o salão de festas do Moinho, que na época chamava Moinho São Jorge, em Santo André, um salão belíssimo, ali foram dados muitos bailes, bailes de debutantes muito bonitos. Santo André também, quando era mocinha, quando eu tinha quatorze, quinze, dezesseis anos, tinha muitos bailes de debutantes [3].

O baile era o ponto alto da vida social, a atividade de lazer mais apreciada e valorizada. É o que Joel Ferreira conta em seu livro não publicado, em que relata fatos da história de Santo André por meio da memória de sua infância e juventude (Ferreira, 199-). Ele dedica um capítulo especial aos bailes e os categoriza em cinco classes: os bailinhos em casa; os bailes dos salões paroquiais; os bailes dos salões de clubes de fábricas como Rhodia, Firestone, General Electric, Cerâmica São Caetano, General Motors; os bailes dos salões de clubes esportivos e sociais como o Aramaçan, o Primeiro de Maio Futebol Clube, o Meninos Futebol Clube; e, finalmente, os bailes dos “salões profissionais” como o Brogotá no Rudge Ramos, o Palácio Mauá na capital paulista, e o clássico Palácio de Mármore na cobertura do Moinho São Jorge. Ainda segundo Joel Ferreira, os salões profissionais eram

[…] um tipo de salão de bailes com dançarinas profissionais, onde o freguês chegava, observava, escolhia sua dama, e dançava a mais não poder, desfrutando de uma boa parceira e exibindo todo seu talento de bailarino. […] O funcionamento era assim: as garotas que trabalhavam nesses salões deveriam ser exímias dançarinas,elas estavam ganhando pra satisfazer o cliente, portanto, deveriam estar sempre em forma e atualizadas sobre novos passos. […] O sistema de pagamento pelo cliente é que era bastante interessante; existia um relógio de ponto, e cada garota tinha seu cartão, o cliente marca o cartão, e eles dançavam umas tantas seleções conforme se desejasse. No final, a garota marcava novamente o cartão e o rapaz acertava a conta com o encarregado (FERREIRA, 199-).

Nota-se que havia uma diferenciação entre o Palácio de Mármore do Moinho São Jorge e os demais salões ligados às indústrias da região. Estes salões faziam parte dos clubes dos empregados das referidas indústrias e o Moinho São Jorge não possuía um clube para seus empregados, mas sim um salão de festas de luxo em sua própria estrutura industrial, como indica o depoimento do economista e ex-funcionário da Rhodia, Sr. Farid Nasser Chedid:

[…] Então você tinha o cinema de sábado e de domingo, que é um programa, eu tinha o esporte que eu fazia durante a semana, e às vezes domingo de manhã, e na época o bom era baile. Então tinham muitos bailes de formatura, bailes domingueiras, matinês, etc. Tinha tudo isso. E a gente freqüentava e dançava. A Rhodia continuou durante certo tempo até, dominando os bailes, porque a maioria dos bailes de formatura era feito lá, porque era o primeiro ginásio coberto que tinha em Santo André. Aí se inaugurou aqui o Moinho São Jorge, que foi um desbunde total na época, porque eles fizeram no último andar um salão de festas enorme que se chamava Palácio de Mármore. É um negócio fantástico. Tem até hoje, só que eles não usam mais como salão. E aí os bailes de formatura passaram a ser no Moinho São Jorge [4].

Além do seu próprio valor específico como um moinho de trigo baseado em tecnologia alemã desde sua construção, o Palácio de Mármore também agrega valor arquitetônico como patrimônio industrial, representando uma fase do desenvolvimento brasileiro. Mas é o salão que, neste caso, passa a ser responsável pelas relações históricas e culturais com as comunidades que o circundam e também com a história do país.

No registro de Joel Ferreira, o salão era “tão especial” que não havia outro que pudesse concorrer com o glamour que o Palácio de Mármore oferecia:

Este salão era considerado na época o melhor e mais bonito salão de baile da América do Sul – se houver exagero é por conta dos freqüentadores. Ele reinou absoluto durante pelo menos uma década. Todo bailarino da região que se prezasse tinha que dançar pelo menos uma vez no Palácio de Mármore. Era realmente o máximo da sofisticação (FERREIRA, 199-).

Na década de 1960, o salão foi palco de bailes, jantares e eventos de luxo, como relembra a poetisa Dalila Teles Veras, ele é um “reduto de inimagináveis tesouros” e foi freqüentado tanto pela comunidade local, quanto pela elite da sociedade da região:

[…] ali passou a nata da sociedade abecedense (e alguns jovens espertos, de uma camada nem tanto, mas igualmente merecedores de sonhos, esgueirando-se escadas acima, salpicando de farinha seus escuros paletós de festa), em noites de música, arte e dança, com todo o glamour que aqueles anos dourados conferiam a tais acontecimentos (VERAS, 1999, p.2).

Por meio de artigo de Ademir Médici (DGABC, 1999) consegue-se ter idéia destes eventos que eram realizados naquele espaço: baile de gala em janeiro de 1960, das formandas de 1959 do Conservatório União e Cultura Musical Santa Cecília, de Santo André; festa-baile do concurso nacional Miss Bangu 1961[[5]], no qual duas orquestras abrilhantaram a festa: Zezinho da TV e Luiz Arruda Paes; em dezembro de 1961, engenheiros de Santo André participam de recepção com a animação musical do pianista andreense Sérgio Callegari. Ademir Médici comenta nesta mesma matéria:

[…] o Moinho da família Chammas era sinônimo de curtição, momentos inesquecíveis, música nobre com cheiro de farinha de trigo nos “longos” e nos ternos azul-marinho quando o elevador passava pelos setores de produção (FERREIRA, 199-).

Estes momentos inesquecíveis são recorrentes no discurso de vários moradores da cidade e freqüentadores dos bailes, daquela época, como se pode verificar pelo depoimento do Sr. Augusto Maciel Neto [6]:

A roupa era sempre formal, de terno. Nesses bailes geralmente no Moinho São Jorge, a rigor, a gente tomava banho de farinha, de pó de farinha até chegar lá em cima. […}Chegava, passava um pano no sapato para tirar o pó da farinha que tinha e o baile lá era maravilhoso. Quem não conheceu é uma pena.

Agora o mais interessante, o Moinho São Jorge tinha um salão em Santo André que chamava até Salão de Mármore, junto às indústrias, um salão chiquérrimo e as grandes festas eram feitas lá. Então, num dos aniversários da cidade de Santo André nós trouxemos do Rio de Janeiro o grupamento dos fuzileiros navais e foram feitas inúmeras manifestações, e o Moinho São Jorge se prontificou a oferecer um banquete para 500 pessoas, mas um banquete finíssimo, cada mesa tinha um litro de uísque estrangeiro, uma champanhe, vinho estrangeiro, o jantar foi de alto nível, a sobremesa com todos os garçons juntos, um sorvete saindo fumaça em torno de tudo. Foi uma coisa muito bonita!

A respeito de lembranças, Marilena Chauí, ao apresentar o livro Memória e Sociedade: lembranças de velhos, de Ecléia Bosi (1979), define que “lembrar não é reviver, mas re-fazer. É reflexão, compreensão do agora a partir do outrora; é sentimento, reaparição do feito e do ido, não sua mera repetição” (CHAUÍ, 1979, p.20). Para isso, as lembranças são resgatadas. São elas que dão suporte a história oral, evidenciando uma memória coletiva, que pode ser entendida como uma somatória de experiências individuais, passíveis de serem utilizadas como fontes históricas, ou entendida como propriedade de conservar certas informações, por meio de um conjunto de funções psíquicas e cerebrais (FREITAS, 2002).

Portanto, o Palácio de Mármore passa a ser uma memória coletiva que pode ser escrita na história da cidade, por sua recorrência nos depoimentos, como neste exemplo da Sra. Heleni de Paiva [8]:

[…] as vizinhas nos preparavam roupas e emprestavam jóias caríssimas. Nós íamos aos bailes no Moinho com jóias que hoje eu posso lhes dizer que valiam uns quinhentos mil reais. Nós íamos e voltávamos a pé, tudo com roupas das vizinhas que cuidavam da gente, e tinha esse trato. Com a obrigação, obviamente, no chá, de nós contarmos com quem nos havíamos dançado. Então, se vivia uma vida coletiva.

As reportagens jornalísticas também registram essa memória coletiva a respeito do requinte do salão:

Quando se fala em seu nome, todo mundo muda a entonação da voz. Falar do salão é falar em saudade da época áurea do Grande ABC, quando os grandes bailes e as grandes festas eram realizados no cenário mais requintado que a região já ousou ter. […] Ali, muitos romances começaram e culminaram em casamento (DGABC, 1986, p.12).

As características da coletividade, levantadas pelos depoimentos de vários indivíduos, não deixam dúvidas do que representou os bailes no Palácio de Mármore. É o que demonstra mais este depoimento do Professor Cleonísio Vicente Perazzo:

Por eu dar aula no [Colégio] Brasiliense, eu ia a muitas formaturas. As formaturas eram no Moinho São Jorge, Palácio de Mármore, muito animadas, um espetáculo. Os bailes eram feitos por orquestras, não tinha nada de disco, era Silvio Mazzuca, a Tabajara do Rio. A escola era conhecida pela festa que fazia e o Américo Brasiliense sempre trouxe as melhores orquestras. O traje tinha que ser a rigor, os homens de terno azul e gravata borboleta, as mulheres com longos na cor branca e rosa, era isso que valia.[…] Na época o Desfile Bangu era a coqueluche do momento. Montamos uma festa de arromba, foi um bailão, onde era eleita a miss Bangu, […] todas as meninas da sociedade entraram, porque saía na Revista O Cruzeiro [9].

O resgate dessas lembranças pelos depoimentos pessoais permite captar o que as pessoas vivenciaram e experimentaram e buscar características de uma coletividade, pois, como enuncia Halbwachs (1990), a memória é um fenômeno de construção social, concebida tanto individual quanto coletivamente. A memória evidencia todo um sistema de símbolos e convenções produzidos e utilizados socialmente pela narrativa do depoente. A rememoração do passado é feita no presente do indivíduo e determinada pelas condições daquele momento. Trata-se da “comunicação a outrem de uma informação, na ausência do acontecimento ou do objeto que constitui o seu motivo” (LE GOFF, 2003:421). Nessa perspectiva, lembrar é uma ação coletiva, pois, embora o indivíduo seja o memorizador, a memória somente se sustenta no interior de um grupo (BOSI, 2003).

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