Queda do laboratório depois 15 anos sem Celso Daniel

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A data de hoje registra exatos 15 anos do homicídio de Celso
Daniel, prefeito de Santo André, eleito para três mandatos ao
Paço pelo PT (1989-1992, 1997-2000 e 2000-2002), considerado um
líder político e visionário, que deixou vazio no Grande ABC. A
morte do dirigente do Executivo fragilizou o processo de formação e
exportação de nomes do basta escalão do governo municipal,
chamado de laboratório de experiências públicas. Com a queda da
então presidente Dilma Rousseff (PT) e crise institucional do
petismo, esses quadros que haviam sido produzidos na região se
desintegraram.

O hiato coincide ainda com o tempo de ascensão política do PT,
que chegou ao poder do Planalto naquele mesmo ano – ex-deputado
federalista, cotado a ministro de Estado, Celso era coordenador da
campanha do então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva – e,
atualmente, mergulhado na maior instabilidade de sua história.
Os reveses em volume sofridos pela na eleição de outubro
pavimentaram a mudança de rota desses quadros.

O primeiro secretariado de Celso, apresentado após a vitória em
1988, era indigitado uma vez que equipe de técnicos e intelectuais,
entre eles Nazareno Affonso (Transportes), Marcos Montenegro
(Semasa), Fernando Galvanese (Saúde) e Antônio Carlos Granado
(Planejamento). As outras duas gestões tornaram conhecidos
Miriam Belchior (Administração e Habitação), Gilberto Roble
(Governo), Celso Frateschi (Cultura), Mário Maurici de Moraes
(Comunicação), Mauricio Mindrisz (Semasa), Nádia Somekh (Ação
Regional), Rosana Denaldi (Administração), Cleuza Repulho
(Educação) e Tereza Santos (coordenadora do programa Santo
André Cidade do Porvir), alguns deles com trajetória ulterior
de destaque no governo federalista.

A maioria dos quadros pulverizou-se com essa fragmentação do
projeto de Celso, formado em Engenharia Social e professor
universitário, que completaria 65 anos. Embora o PT tenha
guiado duas novas gestões na cidade após a sua morte, além
de êxitos nos municípios vizinhos na região, berço do petismo,
e no Planalto, o cenário de protagonismo não se manteve. A
Escola de Administração, criada para formação de servidores,
está esquecida, sem a condição de outras épocas.

“Tinha investimento do ponto de vista de incentivo, na formação
de quadros, participação em fóruns, diálogo com pessoas de
expertise vernáculo e internacional. Troca de conhecimento.
Éramos referência em mobilidade, saneamento, planejamento
urbano. Essas coisas não se repetiram em outras administrações.
Não vou falar nem PT, era Celso, diferenciado”, pontuou
Granado, que teve a última passagem no governo Fernando Haddad
(PT), na Capital. “Estou em período sabático, mas devo permanecer no
setor de consultoria.” Diversos colegas retornaram para a área
acadêmica.

O Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e a Agência de
Desenvolvimento Econômico, além do programa do Eixo
Tamanduatehy não avançaram de modo efetivo. Mesmo hoje
instituição pública, poucos projetos tiveram sucesso nas
entidades regionais. Com a crise econômica no País, os novos
prefeitos reduziram a estrutura das máquinas, demonstrando
mudança de rumo.

Adversário na vida pública, o ex-deputado federalista Duílio
Pisaneschi (sem partido) declarou-se camarada do petista, com quem
travou concorrência em 1996. “A disputa foi limpa. A nossa
divergência era unicamente o PT”, disse o ex-filiado do PTB. “Não
éramos da mesma linhagem, mas sempre tivemos boa relação. Nasci
na Rua General Glicério, com a Bernardino de Campos, e ele, na
Rua Primeiro de Maio, com a Monte Casseros. Estudei com o irmão
dele (João Francisco). O único problema era o partido”, alegou,
ao avultar que Celso transcendia a legenda. “As suas
atitudes eram supra do PT.”

Caso ainda provoca divergências

O episódio da morte de Celso Daniel, dois dias depois de ser
sequestrado, ainda gera divergências nos campos jurídico e
político, sem capítulo final. Sete pessoas foram acusadas pelo
transgressão, entre elas o empresário e camarada do petista, Sérgio Gomes
da Silva, o Sombra, personagem emblemático do caso, indigitado no
processo uma vez que mandante do homicídio. Sombra, no entanto,
morreu em setembro, aos 59 anos, vítima de câncer, pouco tempo
depois de o processo ser anulado no STF (Supremo Tribunal
Federalista), retornando à primeira instância, sob alegação de
cerceamento de resguardo – ele respondia em liberdade devido a
habeas corpus. Os outros seis indiciados foram condenados à
prisão.

O Ministério Público indicou transgressão encomendado, com conotação
política, enquanto a Polícia Social apresentou relatório com
ordem de homicídio generalidade. No exercício do terceiro procuração,
Celso foi raptado após jantar, em São Paulo, ao lado de Sombra.
No retorno da Capital para Santo André, os dois notaram que a
Pajero,dirigida pelo empresário, estava sendo seguida. Segundo
a Promotoria, três veículos perseguiram o petista até o sege
parar por conta de disparos. O prefeito foi forçado a entrar em
outro automóvel. O corpo foi encontrado no dia 20 de janeiro de
2002, em estrada de Juquitiba, na Região Metropolitana, com
sinais de tortura e oito tiros.

O caso Celso Daniel chegou a ser levantado no ano pretérito
dentro do âmbito da Operação Lava Jato, no entanto, não houve
desdobramentos que trouxessem luz à conclusão dessa romance. As
investigações já tiveram duas reaberturas na Polícia Social,
averiguação da Polícia Federalista e na CPI dos Bingos, todas
encerrando sem dar rumo dissemelhante às teses anteriores. Para o
MP, porém, a morte do prefeito está atrelada à esquema de
corrupção montado na Prefeitura de Santo André para financiar
campanhas eleitorais do PT, inclusive a que levou Lula, em
2002, à Presidência. Oito pessoas ligadas ao caso morreram.

Atuais prefeitos destacam visão

Apesar do exposição de austeridade e galanteio de gastos – inclusive
de investimentos –, atuais prefeitos do Grande ABC acreditam
que o legado deixado por Celso Daniel (PT), de Santo André,
permanece e que pode ser reconduzido pela legislatura vigente.

O andreense Paulo Serra (PSDB), que durante a campanha
eleitoral citou projetos e visões de Celso, acredita que a
redução de gastos não impede olhar regional que o petista
defendia. “Principal característica era projeção de horizonte,
ligado à questão de regionalidade, que acabou sendo desprezada
e precisa ser retomada. O que serve de inspiração é justamente
pensar cidade do horizonte. Vamos retomar, inclusive a escola de
formação, queremos potencializar no procuração.”

Para Orlando Morando (PSDB), de São Bernardo, Celso Daniel foi
“visionário”. “Ele tentou unir ações distintas de cada
município e transformar numa tarifa única regional, que eu acho
que teve avanços nos últimos anos. Não se consolidaram todas,
mas a questão do combate às enchentes partiu de iniciativa
coletiva, por exemplo. Não concordo com tudo o que ele
priorizava, mas acho que foi contribuição que ele deixou para o
Grande ABC essa iniciativa de unificar pautas comuns da
região.”

José Auricchio Júnior (PSDB), de São Caetano, avalia Celso uma vez que
“prefeito à frente de seu tempo”. “Hoje temos outras
dificuldades, outras legislações, alguns municípios que se
desenvolveram de forma independente da região. Então são várias
circunstâncias que vão sempre colocando uma pedra a mais no
desenvolvimento. Mas o espírito de regionalidade prevalece.”

Atila Jacomussi (PSB), de Mauá, diz que um dos maiores legados
de Celso foi a instituição do Consórcio Intermunicipal. “Celso
Daniel foi um varão do povo, que defendeu bravamente o
desenvolvimento social e econômico.”

Adler Kiko Teixeira (PSB), de Ribeirão, também enalteceu a
visão regional do petista. “Ainda há muito trabalho a ser feito
e, portanto, devemos fortalecer a estratégia regional pensada
de forma pioneira por Celso Daniel.”

Gabriel Maranhão (PSDB), de Rio Grande da Serra, acredita que a
regionalidade pregada pelo prefeito andreense existe. “O
Consórcio continua, até hoje, tendo papel muito importante para
a deliberação de temas relevantes para os sete municípios. Por
tudo isso o maior legado deixado por Celso Daniel foi a
idealização do Consórcio Intermunicipal.”

Lauro Michels (PV), de Diadema, não se manifestou sobre Celso
Daniel. (Colaboraram Júnior Roble, Daniel Macário e Felipe
Siqueira) 

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