ABC tem +5 mil acidentes e Faixa Azul engatinha

Levantamento do Infosiga revela que o ABC Paulista acumulou milhares de acidentes de trânsito entre junho de 2025 e maio de 2026, com destaque para a Rodovia Anchieta, em São Bernardo do Campo, que lidera o ranking regional. Apesar do cenário grave, a implantação da Faixa Azul — espaço exclusivo para motociclistas — avança em ritmo lento na região. Santo André foi pioneira, seguida por São Bernardo e, mais recentemente, Diadema. Já Rio Grande da Serra descartou o projeto. A medida depende de autorização técnica da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) e ainda divide opiniões entre especialistas, que questionam sua real eficácia na redução de mortes.

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  •   Publicado em: 30 de junho de 2026
  •   Atualizado em: 30 de junho de 2026
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Vias do ABC concentram milhares de acidentes, mas Faixa Azul avança devagar

O trânsito do Grande ABC tem um problema que salta aos olhos de quem circula pela região: motociclistas em alto risco e poucas estruturas de proteção para esse público. Dados do Infosiga, plataforma de estatísticas mantida pelo Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP), mostram que vias como a Rodovia Anchieta (SP-150), em São Bernardo do Campo, e a avenida dos Estados, em Santo André, somaram milhares de ocorrências entre junho de 2025 e maio de 2026.

Quem mora na região há décadas sabe que esse não é um problema novo. O ABC sempre conviveu com corredores industriais movimentados, rodovias que cortam bairros residenciais e um crescimento constante da frota de motos — usada tanto para trabalho quanto para o delivery, setor que se expandiu fortemente nos últimos anos. Esse cenário torna a discussão sobre segurança viária ainda mais urgente.

A Faixa Azul surge como resposta a esse problema. Trata-se de um espaço demarcado entre as faixas de transito, destinado à circulação preferencial — não exclusiva — de motociclistas, motonetas e ciclomotores. A ideia é simples: organizar um movimento que já acontece naturalmente no trânsito, quando motos circulam “entre carros”, e transformá-lo em algo mais previsível tanto para quem pilota quanto para quem dirige.

Anchieta lidera ranking de acidentes na região

ABC tem +5 mil acidentes e Faixa Azul engatinha

ABC tem +5 mil acidentes e Faixa Azul engatinha

Foto: Omar Matsumoto/PMSBC

O levantamento do Infosiga mostra um retrato detalhado da situação. A Rodovia Anchieta, em São Bernardo, aparece na liderança, com 1.604 acidentes no período analisado. Em seguida vem a Rodovia dos Imigrantes (SP-160), também no município, com 951 ocorrências.

Em Santo André, a avenida dos Estados contabilizou 574 acidentes, enquanto a rua Giovanni Battista Pirelli somou 378. Diadema aparece com a SP-160 registrando 397 ocorrências e a avenida Piraporinha, 339.

A lista de vias críticas segue por outros municípios:

  • Mauá: avenida Barão de Mauá (381) e avenida João Ramalho (205);
  • Ribeirão Pires: avenida Índio Tibiriçá (105) e SP-031 (93);
  • São Caetano do Sul: avenida Goiás (80) e avenida Guido Aliberti (50);
  • Rio Grande da Serra: Estrada Guilherme Pinto Monteiro (20) e avenida Deputado Antônio Adib Chammas (15).

Esses números reforçam um padrão observado em todo o estado. Segundo dados consolidados pelo próprio Infosiga, São Paulo registrou em 2024 o maior número de mortes no trânsito desde 2015, ano em que a série histórica começou a ser divulgada, com 1.031 mortes em acidentes de trânsito entre janeiro e dezembro de 2024 na capital. No estado todo, os motociclistas foram os que mais morreram em acidentes, somando 2.626 vítimas, o que ajuda a explicar por que a categoria virou prioridade nas políticas públicas de trânsito.

Como funciona a autorização da Faixa Azul

A implantação da Faixa Azul não é uma decisão isolada de cada prefeitura. Ela depende de autorização da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), vinculada ao Ministério dos Transportes, e de estudos técnicos específicos. Segundo a própria Senatran, a autorização depende do cumprimento de critérios de segurança viária e adequação ao contexto local, e após a implementação o órgão acompanha os resultados com base em dados enviados pelos municípios, avaliando indicadores como sinistros e óbitos de motociclistas ao longo do período experimental.

O projeto foi formalizado em caráter experimental por meio de portaria específica da Senatran, que autorizou a sinalização voltada à circulação de motocicletas em via urbana e vinculou o projeto a medições periódicas de sinistros, velocidade, volume de tráfego e percepção dos usuários. Isso significa que cada cidade precisa apresentar relatórios técnicos comprovando que a via é adequada — fatores como largura da pista, volume de motos e histórico de acidentes entram nessa análise.

Mas afinal, isso significa que a Faixa Azul é uma solução garantida? Não exatamente. Estudos independentes, conduzidos por pesquisadores da USP e da UFC com apoio da organização Vital Strategies, levantaram dúvidas sérias sobre a eficácia da medida. A pesquisa apontou que sete em cada dez motociclistas ultrapassam o limite de velocidade nas vias com faixa azul, frente a apenas um em cada dez nas vias sem a sinalização, e identificou um aumento de 33% nos acidentes com motociclistas nos cruzamentos onde havia faixa azul, ainda que tenha havido redução de acidentes nos meios de quadra. Esse dado é importante porque mostra que a medida não é unanimidade entre especialistas, mesmo sendo defendida por gestões municipais como mecanismo de segurança.

Como está cada cidade do ABC

CidadeSituação da Faixa AzulVias contempladas
Santo AndréPioneira, em operação desde maio de 2024Av. Prestes Maia, Dom Jorge Marcos de Oliveira, José Antonio de Almeida Amazonas (estudos para Av. dos Estados e Pres. Costa e Silva)
São Bernardo do CampoEm operação desde março de 2025Avenida Lions, com estudos para expansão
DiademaEm implantação desde junho de 2026Corredor ABD, Fábio Eduardo Ramos Esquível, Presidente Kennedy
Rio Grande da SerraDescartadaNão se aplica
Mauá, Ribeirão Pires, São CaetanoSem informação de projeto em andamento

Santo André foi a pioneira no ABC, com a Faixa Azul entrando em operação na avenida Prestes Maia e depois expandida para outras vias. A prefeitura já sinalizou intenção de levar o projeto também para a avenida dos Estados — justamente uma das vias com mais acidentes da região.

Em São Bernardo do Campo, a faixa começou a funcionar na avenida Lions depois que estudos técnicos da própria prefeitura identificaram que cerca de 70% dos acidentes registrados no trecho envolviam motociclistas. É um número que, por si só, justifica a urgência da medida — mas que também mostra como o ritmo de expansão ainda é tímido diante do tamanho do problema na cidade, que concentra as duas vias mais perigosas de todo o ABC.

Diadema começou sua implantação mais recentemente, com sinalização sendo feita junto ao recapeamento asfáltico em três corredores importantes. A prefeitura informou que a prioridade agora é concluir essa primeira etapa e avaliar os resultados antes de pensar em expansão.

Rio Grande da Serra decidiu não seguir o mesmo caminho. A prefeitura alega que as características viárias do município não comportam corredores exclusivos e que o fluxo de motocicletas é menor, concentrado principalmente em entregadores de aplicativos.

Como isso afeta quem pilota moto no ABC?

Para quem depende da moto diariamente — seja para trabalhar, seja para se deslocar — a ausência de estrutura adequada em vias de alto risco como a Anchieta tem impacto direto na segurança. O motociclista Caio, 29 anos, morador de Santo André, resume bem essa percepção ao defender que cidades maiores do ABC, como São Bernardo e Diadema, ampliem a Faixa Azul especialmente em rodovias de grande fluxo, onde os acidentes são mais frequentes.

Caio nunca se envolveu em um acidente grave, mas já perdeu amigos motociclistas em ocorrências de trânsito — um relato que, infelizmente, não é raro entre quem circula de moto pelas vias do ABC. A percepção de risco constante, somada aos números do Infosiga, ajuda a entender por que a demanda por mais segurança viária segue crescendo na região.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Qual via tem mais acidentes no ABC? A Rodovia Anchieta (SP-150), em São Bernardo do Campo, lidera o ranking, com 1.604 acidentes registrados entre junho de 2025 e maio de 2026, segundo o Infosiga.

Quais cidades do ABC já têm Faixa Azul? Santo André, São Bernardo do Campo e Diadema possuem o projeto em operação ou em fase de implantação. Rio Grande da Serra descartou a medida.

Quem autoriza a implantação da Faixa Azul? A Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), vinculada ao Ministério dos Transportes, com base em estudos técnicos sobre largura da via, volume de motos e histórico de acidentes.

A Faixa Azul realmente reduz acidentes? O tema é controverso. Enquanto prefeituras defendem ganhos de segurança, estudos de universidades como USP e UFC apontaram aumento de acidentes em cruzamentos nas vias com a sinalização.

Por que Rio Grande da Serra não terá Faixa Azul? Segundo a prefeitura, as características viárias da cidade não comportam o corredor exclusivo, e o fluxo de motos é menor, concentrado em entregadores.

Fontes:

  1. Infosiga (Detran-SP)
  2. CNN Brasil
  3. Portal do Trânsito (dados Senatran/Contran)


OPINIÃO

ABCTudo Paulista

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.

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