Análise VAR: Por que os Critérios Mudam? Lances Polêmicos de São Paulo e Palmeiras em Foco


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  •   Publicado em: 01 de novembro de 2025

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Análise VAR: Por que os Critérios Mudam? Lances Polêmicos de São Paulo e Palmeiras em Foco

 

Introdução: A Promessa Quebrada

 

Quando o VAR (Video Assistant Referee) foi introduzido no futebol, ele carregava uma promessa messiânica: o fim da injustiça. Era a resposta tecnológica para os “erros humanos” que definiam campeonatos, rebaixavam equipes e marcavam carreiras. A tecnologia traria a objetividade das linhas e dos múltiplos ângulos para um esporte definido pela interpretação subjetiva de um único indivíduPio em milésimos de segundo. O gol de mão de Maradona, o gol fantasma de Hurst em 66 — tudo isso se tornaria peça de museu.

A realidade, no entanto, provou ser melancólica. O VAR não eliminou a polêmica; ele apenas a transferiu do gramado para uma cabine climatizada a quilômetros de distância. A frustração do “erro humano” foi substituída pela angústia da “interpretação da cabine”, muitas vezes mais lenta, mais confusa e, o que é pior, dramaticamente inconsistente.

No Brasil, essa ferramenta parece ter potencializado a desconfiança. O problema central não reside na tecnologia em si, mas na sua aplicação. O protocolo da IFAB (International Football Association Board) é claro: o VAR só deve intervir em “erros claros, óbvios e manifestos”. No entanto, o que vemos semana após semana é uma roleta de critérios. O “contato de jogo” em uma partida é “pênalti claro” em outra. A “mão em posição não natural” de domingo é a “mão de apoio” de quarta-feira.

Essa inconsistência crônica é o combustível para a paixão do torcedor. E para o torcedor do São Paulo FC, a percepção de que essa inconsistência tem um padrão é nítida. Há um sentimento generalizado de que o clube tem sido vítima de erros grosseiros e omissões inexplicáveis. Em contrapartida, a percepção de que o rival Palmeiras se beneficia de uma aplicação mais “flexível” ou “interpretativa” da regra em momentos-chave alimenta um debate que vai além da rivalidade: o VAR está, de fato, entregando justiça, ou apenas criando novas formas de injustiça?

Este artigo não se baseia em teorias da conspiração, mas em fatos documentados. Analisaremos lances capitais, erros de protocolo e a disparidade de critérios que colocam a maior inovação do futebol moderno em xeque.

 

Seção 1: O Caos Operacional – Lances Bizarros e Omissões Grosseiras

 

Antes de dissecar a rivalidade, é preciso estabelecer um fato: a operação do VAR no Brasil é, por vezes, tecnicamente falha e operacionalmente bizarra. Esses momentos de incompetência geral minam a credibilidade de todo o sistema e provam que, muitas vezes, o problema é mais básico do que a interpretação.

 

Os Lances Bizarros (Onde o VAR interveio e errou)

 

A intervenção indevida do VAR é talvez seu pecado capital. Ele existe para corrigir erros claros, não para “caçar” infrações milimétricas ou re-apitar o jogo.

Um exemplo clássico de bizarrice operacional é o “pênalti do Soteldo”, no jogo entre Grêmio e Santos pelo Brasileirão de 2023. O árbitro Wilton Pereira Sampaio nada marcou em um contato leve de Geromel no atacante santista. O VAR (Rodrigo D’Alonso Ferreira) chamou o árbitro para revisar um “pisão” milimétrico no pé de Soteldo. O árbitro de campo, que estava de frente para o lance e o considerou de jogo, reverteu sua decisão e marcou o pênalti após ver a câmera lenta. Este lance viola o princípio do “erro claro e óbvio”. Se foi necessário zoom e câmera super-lenta para detectar um “pisão”, não era um erro manifesto. O VAR, aqui, não foi um assistente; foi o árbitro principal.

Outra bizarrice recorrente é a traçagem das linhas de impedimento. O caso do gol anulado de Paulinho, do Vasco, contra o Palmeiras em 2023, é emblemático. A linha de impedimento foi traçada a partir do braço do zagueiro Gustavo Gómez, que estava caído no chão. A regra é explícita: braços e mãos não contam para fins de impedimento, pois não se pode marcar um gol legalmente com eles. Foi um erro técnico, factual, que anulou um gol legal. Esses erros operacionais não são “interpretação”; são falhas graves de protocolo.

 

4.2. As Omissões Inexplicáveis (Onde o VAR deveria ter intervindo e não o fez)

 

Tão ruim quanto a intervenção errada é o “silêncio ensurdecedor” da cabine em lances capitais. São as agressões, os pênaltis claros e os cartões vermelhos óbvios que são simplesmente ignorados, deixando o torcedor em descrença.

Um dos casos mais emblemáticos de omissão foi no Brasileirão de 2020, no jogo entre Corinthians e Fortaleza. O lateral Fagner, do Corinthians, deu uma entrada violentíssima, com as travas da chuteira no joelho de Ederson, do Fortaleza. O árbitro de campo deu apenas cartão amarelo. Era um lance livro-texto para cartão vermelho direto, que coloca a integridade física do adversário em risco. O VAR (Péricles Bassols) revisou o lance e… concordou com o amarelo. Não chamou o árbitro para revisão.

Essa “passividade” em lances de agressão clara é inexplicável. Ela estabelece o perigoso precedente de que o VAR tem “medo” de intervir em lances disciplinares graves, ou que o critério para “força excessiva” é uma loteria. É esse cenário de caos operacional e critério flutuante que nos leva aos casos específicos dos rivais paulistas.

 

5. Seção 2: O Caso São Paulo FC – Lances que Alimentam a Revolta

Análise VAR: Por que os Critérios Mudam? Lances Polêmicos de São Paulo e Palmeiras em Foco

Análise VAR: Por que os Critérios Mudam? Lances Polêmicos de São Paulo e Palmeiras em Foco – Crédito CNN Brasil

Para o torcedor são-paulino, a sensação de prejuízo é alimentada por uma série de lances capitais onde a ferramenta foi omissa, errou factualmente contra o clube ou usou um rigor que não se vê em outros jogos.

 

Lance 1 (Omissão Clara): O Pênalti em Calleri (São Paulo x Palmeiras, Copa do Brasil 2022)

 

  • O Jogo: Oitavas de final da Copa do Brasil, jogo de ida. Morumbi.
  • O Lance: No segundo tempo, Calleri recebe um cruzamento na área e, ao se preparar para finalizar, é atingido por trás, no tornozelo, pelo zagueiro Gustavo Gómez. Calleri cai, e o árbitro Anderson Daronco manda o jogo seguir.
  • A Decisão do VAR: A cabine do VAR, comandada por Emerson de Almeida Ferreira, revisou o lance. O áudio, divulgado posteriormente pela CBF, é devastador. O operador diz: “Ele (Gómez) acerta o calcanhar dele [Calleri]”. O AVAR concorda: “Ele calça ele por trás”. No entanto, o VAR decide: “Para mim, é um contato de jogo. Ele [Calleri] já está caindo”.
  • A Polêmica: O VAR viu o toque, confirmou o toque por trás, mas interpretou que era um “contato de jogo”. Este é um exemplo clássico de omissão. Não foi um “toque leve”; foi um toque por trás que desequilibrou o atacante em posição clara de gol. A grande maioria dos analistas de arbitragem, como Sálvio Spínola e Arnaldo Cezar Coelho, foi unânime: pênalti claro e erro grosseiro do VAR ao não recomendar a revisão de um erro óbvio do árbitro de campo.

 

Lance 2 (Erro Factual de Regra): O Pênalti de Luciano (São Paulo x Internacional, Brasileirão 2023)

 

  • O Jogo: Brasileirão 2023, Morumbi.
  • O Lance: Em uma disputa de bola, o atacante Luciano, do São Paulo, tenta cortar um passe. A bola bate em seu rosto e, imediatamente, resvala em seu braço de apoio.
  • A Decisão do VAR: O árbitro Sávio Pereira Sampaio nada marca. O VAR (Rodrigo Nunes de Sá) chama o árbitro para revisar um possível toque de mão. Sávio vai ao monitor e marca o pênalti.
  • A Polêmica: Este não foi um erro de interpretação; foi um erro factual de regra. A Regra 12 da IFAB, que trata de mão na bola, é explícita: “Não será marcada infração… se a bola tocar… na mão/braço de um jogador vinda diretamente da sua própria cabeça, corpo ou pé.” A bola veio do rosto de Luciano. Era um lance que o VAR jamais poderia ter chamado, pois não era uma infração segundo o livro de regras. O VAR não só interveio indevidamente como induziu o árbitro a um erro factual.

 

Lance 3 (Omissão Disciplinar): A Cotovelada em Pablo (São Paulo x Corinthians, Paulistão 2022)

 

  • O Jogo: Semifinal do Paulistão 2022, Morumbi.
  • O Lance: O zagueiro Gil, do Corinthians, acerta uma cotovelada clara no rosto do atacante Pablo, do São Paulo, em uma disputa de bola sem que a bola estivesse próxima.
  • A Decisão do VAR: O árbitro Flávio Rodrigues de Souza deu apenas falta. O VAR (Thiago Duarte Peixoto) não recomendou a revisão para um possível cartão vermelho por agressão.
  • A Polêmica: A imagem é clara e mostra um movimento adicional do cotovelo que não é de disputa de bola. Em lances similares, o VAR foi rigoroso em chamar para expulsão. A omissão em um clássico decisivo reforça a percepção de que o critério disciplinar do VAR é inconsistente, especialmente em prejuízo do São Paulo em jogos grandes.

 

6. Seção 3: O Caso Palmeiras – Lances que Geram Debate sobre Critérios

 

Na outra ponta do debate, lances envolvendo o Palmeiras frequentemente geram polêmica sobre uma suposta “flexibilidade” ou uma aplicação de critérios “interpretativos” que, segundo os rivais, pende consistentemente para o lado alviverde em momentos cruciais.

 

Lance 1 (Interpretação vs. Fato): O Pênalti de Dudu em Jair (Palmeiras x Atlético-MG, Libertadores 2022)

 

  • O Jogo: Quartas de final da Libertadores 2022, Allianz Parque.
  • O Lance: O volante Jair, do Atlético-MG, entra na área e é derrubado por um carrinho de Dudu. O árbitro Wilmar Roldán (Colômbia) manda o jogo seguir.
  • A Decisão do VAR: O VAR (Juan Soto, Venezuela) chama Roldán para a revisão, indicando um possível pênalti. A imagem mostra Dudu atingindo o pé de Jair por trás, em um lance muito similar ao de Gómez em Calleri. Roldán vai ao monitor, assiste ao lance diversas vezes e, para a surpresa geral, decide manter sua decisão de campo (não-pênalti).
  • A Polêmica: Este lance é o oposto do caso Calleri. Aqui, o VAR cumpriu seu papel: detectou um erro claro e chamou o árbitro. No entanto, o árbitro de campo, mesmo vendo a imagem clara do contato faltoso, usou sua “interpretação” subjetiva para não marcar um pênalti evidente. Para os rivais, este lance é um símbolo de como, mesmo quando a tecnologia mostra o erro, a decisão final “interpretativa” acaba favorecendo o Palmeiras em um momento decisivo de Libertadores.

 

Lance 2 (Erro Técnico): O Gol Anulado do Vasco (Palmeiras x Vasco, Brasileirão 2023)

 

  • O Jogo: Brasileirão 2023, Allianz Parque.
  • O Lance: Conforme mencionado na Seção 1, o gol de Paulinho (Vasco) é anulado por impedimento.
  • A Decisão do VAR: A cabine do VAR (Wagner Reway) traça a linha de impedimento usando o braço de Gustavo Gómez como referência para a posição do penúltimo defensor.
  • A Polêmica: Este é um erro técnico crasso. A regra é clara: o braço não é parte válida para se traçar a linha de impedimento. Se a linha fosse traçada corretamente (a partir do ombro ou tronco de Gómez), o atacante do Vasco estaria em posição legal. Foi um erro factual da equipe de VAR que beneficiou diretamente o Palmeiras, anulando um gol legal do adversário.

 

Lance 3 (O “Critério” do Impedimento): Gol de Rony (Palmeiras x Botafogo, Brasileirão 2022)

 

  • O Jogo: Brasileirão 2022, Allianz Parque.
  • O Lance: Gol de Rony, do Palmeiras, validado após checagem de impedimento.
  • A Decisão do VAR: A cabine do VAR (Daniel Nobre Bins) validou o gol.
  • A Polêmica: O Botafogo reclamou formalmente à CBF, alegando que as linhas traçadas pelo VAR estavam “tortas” ou mal posicionadas. O clube carioca apresentou sua própria análise técnica mostrando que o frame (o momento exato do toque na bola) estava errado e que a linha no zagueiro do Botafogo foi traçada de forma incorreta, colocando Rony em posição de impedimento. Embora a CBF tenha sustentado a decisão, o lance se tornou mais um exemplo de como até a ferramenta “objetiva” do impedimento gera desconfiança extrema dependendo de quem a opera — e de quem é beneficiado.

 

7. Seção 4: O Caminho para a Redenção – Como Corrigir o VAR

 

A paixão do torcedor são-paulino, ou a frustração dos rivais do Palmeiras, não nasce do vácuo. Ela é filha direta da incompetência e da inconsistência. O VAR não é um vilão; ele é uma ferramenta mal utilizada. Para salvar sua credibilidade, o caminho é claro e exige mudanças drásticas:

  1. Transparência Absoluta (Os Áudios): A liberação dos áudios pela CBF após a rodada foi um avanço, mas é insuficiente. Em ligas como a MLS (EUA) ou no Rugby, a explicação do árbitro é anunciada ao vivo para o estádio. O torcedor merece saber o que está sendo revisado e por que a decisão foi tomada, em tempo real.
  2. O Sistema de “Challenge” (Desafio): A solução mais inteligente seria tirar o poder total da cabine e dá-lo aos times. Como no Vôlei ou no Tênis, cada técnico teria dois “desafios” por jogo. Se ele acredita que houve um erro claro (um pênalti não dado, uma expulsão ignorada), ele pede o desafio. Isso foca a revisão no que os times veem como injustiça e acaba com a “caça às bruxas” da cabine.
  3. Limitar a Intervenção (Voltar ao Básico): O VAR precisa parar de re-apitar o jogo. A intervenção deve ser apenas para erros factuais (impedimento, bola fora de jogo) e erros “claros, óbvios e manifestos”. Lances “interpretativos” ou “contatos de ombro” jamais deveriam ser chamados. O VAR virou um árbitro de segunda instância, o que é uma distorção de seu propósito.
  4. Profissionalização e Especialização: O árbitro de VAR não pode ser o mesmo árbitro de campo em regime de escala. A operação de vídeo exige habilidades diferentes: concentração, entendimento de tecnologia e frieza para analisar frames. É preciso criar um quadro de árbitros especialistas em VAR.

 

Conclusão: A Luta pela Credibilidade

 

Ao final desta análise, fica claro que o VAR, a ferramenta prometida para trazer justiça ao futebol, tornou-se, no Brasil, um catalisador de polêmicas e um multiplicador de desconfianças.

A tecnologia não é o problema. O problema é a aplicação humana, regida por uma assustadora falta de padronização. Os lances que prejudicaram o São Paulo, como o pênalti não marcado em Calleri ou o erro factual na mão de Luciano, são provas de omissão e incompetência. Os lances que geraram polêmica a favor do Palmeiras, como o pênalti ignorado por Roldán ou o erro técnico na linha de impedimento contra o Vasco, são provas de que o critério “interpretativo” é elástico e, por vezes, inexplicável.

A paixão do torcedor são-paulino não é infundada; ela é uma reação direta a uma série de decisões documentadas que o prejudicaram. A irritação dos rivais com o Palmeiras também não é “choro”; é uma reação a uma série de lances “interpretativos” que, em momentos decisivos, penderam para o mesmo lado.

A luta do torcedor não deve ser contra a tecnologia, mas pela sua correta aplicação. Sem transparência total, padronização de critérios e uma limitação clara ao protocolo do “erro óbvio”, o VAR continuará sendo o que é hoje: uma máquina de gerar discórdia, que apenas trocou o apito do juiz pela angústia da linha de comando. E a credibilidade do futebol brasileiro sangra a cada rodada.


OPINIÃO

ABCTudo Paulista

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.

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