A cetamina para depressão virou promessa e alvo de medo ao mesmo tempo. A ciência mostra efeito rápido em parte dos casos de depressão resistente, sobretudo com escetamina nasal aprovada pela Anvisa em 2020 e, nos Estados Unidos, pela FDA em 2019. A cetamina injetável usada em clínica continua, na maior parte dos protocolos, off-label. O efeito não é permanente, não vale para qualquer diagnóstico e não substitui acompanhamento. Uso recreativo e uso médico não são a mesma coisa: dose, via e supervisão mudam o risco. Este texto separa o que está na bula, o que os estudos mediram e o que ainda não tem evidência suficiente.
Quem convive com depressão resistente ouve duas frases no mesmo dia. De um lado, “é o remédio que tira o peso em horas”. Do outro, “é a droga da festa, dá dependência”. As duas frases misturam coisas diferentes. A molécula é a mesma família. O contexto não é.
A cetamina nasceu como anestésico. Nos Estados Unidos, o registro para anestesia veio em 1970. No Brasil, a via endovenosa e a intramuscular profunda seguem essa lógica hospitalar. O salto para a psiquiatria veio depois: o primeiro ensaio controlado pequeno, publicado em 2000, já apontava melhora rápida de sintomas depressivos em comparação com placebo. Duas décadas depois, a escetamina — o enantiômero S da molécula — entrou em bula para um recorte específico de pacientes.
Como isso altera a vida de quem já tentou dois antidepressivos sem resposta? Em alguns protocolos, a queda de sintomas começa em horas ou poucos dias, não em duas a seis semanas. Isso não significa cura. Significa janela. Sem plano de manutenção e sem médico, a janela fecha.
O que a ciência e a bula realmente autorizam
A depressão resistente ao tratamento costuma ser definida como resposta inadequada a pelo menos dois antidepressivos, em dose e tempo adequados, no mesmo episódio. É esse recorte — e não “qualquer tristeza” — que aparece nas aprovações e nos ensaios mais citados.
Em março de 2019, a FDA aprovou o spray nasal de escetamina (Spravato) para adultos com depressão resistente, em conjunto com um antidepressivo oral. Em 2020, ampliou a indicação para sintomas depressivos em adultos com transtorno depressivo maior e ideação ou comportamento suicida agudo. Em janeiro de 2025, a mesma agência passou a aceitar a escetamina também como monoterapia em adultos com depressão resistente. No Brasil, a Anvisa deu sinal verde à escetamina em 2020 para o tratamento sob supervisão, em ambiente clínico. A bula brasileira descreve o uso em combinação com antidepressivo oral.
A cetamina racêmica intravenosa, a que muitas clínicas anunciam, é outra história regulatória. Ela tem registro como anestésico. O uso para depressão, no Brasil e nos Estados Unidos, permanece off-label: o médico pode indicar com base em evidência e em pareceres, mas a finalidade não está na bula de depressão. A FDA, em 2023, alertou contra produtos manipulados de cetamina vendidos para transtornos psiquiátricos sem aprovação específica e desaconselhou o uso em casa, sem monitoração.
Mito 1: “A cetamina cura qualquer depressão”
Verdade parcial, e perigosa se lida inteira. Os ensaios e as meta-análises falam sobretudo de depressão resistente e de sintomas agudos com risco suicida. Uma parte dos pacientes responde. Outra parte não. Relatos de clínicas em São Paulo citam, com base em estudos, melhora relevante em cerca de 50% a 70% de quem tenta a substância depois de falhar nos remédios comuns, e remissão — ausência temporária dos sintomas — em torno de 30%. Isso não é 100%. E remissão não é alta definitiva.
Estudo da Universidade de Michigan, citado na imprensa brasileira, acompanhou 74 pessoas com cetamina intravenosa: 52% chegaram à remissão após três infusões em 11 dias; outros 15% tiveram alguma resposta; metade de quem pensava em suicídio com frequência teve queda do impulso. É um recorte, não uma garantia individual.
Na escetamina nasal, os ensaios TRANSFORM mostraram redução nas escalas de depressão, mas o ganho frente ao placebo mais antidepressivo oral foi, em um dos estudos de fase 3, da ordem de quatro pontos na escala MADRS. Uma parte dos pacientes não responde. O tratamento não substitui o antidepressivo de base nem o acompanhamento contínuo.
Mito 2: “Se a Anvisa aprovou, qualquer clínica pode aplicar do jeito que quiser”
A aprovação da escetamina exige ambiente supervisionado. O paciente não leva o spray para casa. Nos Estados Unidos, o produto entra no programa restrito REMS justamente pelos riscos de sedação, dissociação, depressão respiratória, abuso e uso indevido. No Brasil, a substância está na lista B1: receituário azul, uso restrito a estabelecimento de saúde. Parecer do CRM-SP (130.788/22) aponta a via endovenosa como a descrita na bula nacional e afirma que a via subcutânea não cabe nem como off-label nem como experimental.
Indicações que circulam em redes — fibromialgia de rotina, depressão pós-parto, transtorno bipolar sem ressalva, “vícios” em geral — não têm o mesmo respaldo de bula. Reportagem do Estadão, em 2026, registrou que a Anvisa aprovou a escetamina para transtorno depressivo maior em quem não respondeu a pelo menos dois antidepressivos, e que outras finalidades seguem sem autorização específica. Para bipolaridade, há risco de piora da fase de mania. Para o pós-parto, entra a questão da amamentação. Para dependência e fibromialgia, os estudos ainda são poucos ou de curto prazo.
Como a molécula age e o que ela não faz
Os antidepressivos clássicos trabalham, em geral, na via da serotonina e de outras monoaminas. A cetamina para depressão entra principalmente pela via do glutamato, bloqueando receptores NMDA. A resposta, quando vem, costuma aparecer em horas a poucos dias. Essa velocidade é o ponto que interessa em crise e em ideação suicida. Não apaga a necessidade de psicoterapia, ajuste de outros remédios e plano de recaída.
A molécula de cetamina é uma mistura de dois “espelhos”: arcetamina (R) e escetamina (S). O spray aprovado usa só o S. A infusão que muitas clínicas aplicam usa a mistura racêmica. Comparações indiretas sugerem efeito semelhante no curto prazo; um ensaio brasileiro cabeça a cabeça, com 63 adultos, não mostrou inferioridade de uma forma sobre a outra nas 24 horas. Efeito parecido não significa bula igual.
Mito 3: “É só uma dose e a depressão acaba”
O protocolo de escetamina descrito em materiais clínicos brasileiros começa com duas sessões por semana nas primeiras quatro semanas, depois espaça para uma vez por semana e, a partir da nona semana, pode ir a cada duas semanas, conforme a resposta. A sessão inclui observação. Relatos de serviço falam em cerca de uma hora e meia, contando o tempo depois da aplicação. O resultado não é permanente por definição. Recaída existe. Manutenção existe. Quem vende “uma sessão e pronto” vende o que os ensaios não mediram.
Mito 4: “Se vicia na festa, vicia no consultório do mesmo jeito”
A cetamina tem potencial de abuso conhecido. No uso recreativo, o relato médico brasileiro descreve pó inalado em doses que podem chegar a muitas vezes a dose usada no protocolo de depressão — um psiquiatra citado pela Marie Claire falou em até 90 vezes. No consultório, a dose é subanestésica, o intervalo é controlado e o paciente não sai com frasco na bolsa. Isso reduz o risco. Não zera o risco. A FDA lista abuso e uso indevido entre os motivos para vedar a aplicação sem supervisão. Cistite e sintomas urinários aparecem na literatura de uso crônico e de desvio. Dissociação, náusea, tontura e pico de pressão são os efeitos mais comuns na sessão e, em geral, passam no período de observação.
A tabela abaixo separa o que costuma se misturar na conversa pública.
Afirmação comum
O que as fontes sustentam
“A Anvisa liberou cetamina para depressão”
Liberou escetamina nasal para recorte de depressão resistente / ideação suicida, sob supervisão. Cetamina IV para humor segue off-label.
“Funciona em horas”
Em quem responde, sim. Nem todos respondem.
“Substitui o antidepressivo”
A bula brasileira da escetamina prevê combinação com oral. Em 2025 a FDA aceitou monoterapia nos EUA; isso não copia automaticamente a bula local.
“Pode usar em casa”
FDA e protocolos clínicos desaconselham. Monitoração no local é a regra.
“Serve para bipolar, pós-parto, vício e dor”
Fora da bula de depressão; evidência desigual e, em alguns casos, risco adicional.
“Não vicia porque a dose é baixa”
Potencial de abuso existe. O protocolo controlado reduz, não elimina.
O Supremo Tribunal de Justiça, em entendimento de 2023 citado pelo Globo, considerou que operadoras devem custear a terapia quando o médico indica e a substância tem registro na Anvisa, mesmo off-label e fora do rol. Isso é cobertura judicial, não atestado de que toda indicação é primeira linha.
Quem se pergunta “tenho uma boa oportunidade com isso?” precisa de um filtro simples: já houve falha documentada de pelo menos dois antidepressivos no episódio atual? Há contraindicação cardíaca, histórico de psicose, uso descontrolado de substância? O local aplica com médico presente e observa depois da dose? Se a resposta a qualquer um desses pontos é frouxa, o anúncio à frente da evidência.
A cetamina para depressão mudou o mapa da depressão resistente porque chegou onde a espera de semanas custa caro. Ela não apagou o resto do tratamento. Não legalizou o uso recreativo. Não transformou spray e infusão na mesma coisa. O mito mais caro é o que promete milagre sem bula, sem sala e sem retorno.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Cetamina e ketamina são a mesma coisa?Sim. No Brasil o nome oficial é cetamina. Ketamina é a forma internacional da mesma substância.
2. A Anvisa aprovou cetamina para depressão?Aprovou a escetamina nasal para adultos com depressão resistente e, na linha da bula, em contexto de ideação suicida, com uso supervisionado. A cetamina injetável para humor permanece off-label.
3. Em quanto tempo aparece o efeito?Quando há resposta, em horas a poucos dias. Antidepressivos clássicos costumam levar de duas a seis semanas.
4. Todo mundo com depressão pode usar?Não. O alvo dos registros é quem não respondeu a pelo menos dois antidepressivos no episódio atual, em dose e tempo adequados, e sob avaliação médica.
5. Dá para aplicar em casa?Não. FDA e protocolos clínicos pedem monitoração no local. Produtos manipulados sem aprovação específica foram alvo de alerta em 2023.
6. A cetamina vicia?Tem potencial de abuso. No protocolo médico a dose e o intervalo são controlados. Isso não equivale ao uso recreativo em alta dose.
7. Quais efeitos aparecem na sessão?Tontura, náusea, sonolência, dissociação e aumento transitório da pressão são os mais citados. Em geral passam no período de observação.
8. Infusão na veia e spray nasal são iguais?Não. O spray de escetamina tem bula para depressão. A infusão racêmica tem mais tempo de uso clínico e evidência, mas a indicação psiquiátrica é off-label.
9. O resultado dura para sempre?Não necessariamente. Há manutenção, espaçamento de sessões e risco de recaída.
10. Planos de saúde cobrem?Há entendimento do STJ, de 2023, de que a operadora deve custear quando há indicação médica e registro na Anvisa, mesmo off-label. Cada caso depende de laudo e de decisão.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui o diagnóstico feito em consulta médica.
Em caso de dúvidas ou aparecimento de sintomas mencionados neste artigo procure um profissional de saúde qualificado para obter um diagnóstico preciso.
Lembre-se a automedicação pode ocasionar graves complicações.
OPINIÃO
ABCTudo Paulista
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