Um El Niño de intensidade histórica aqueceu as águas do Oceano Pacífico e criou condições para uma sequência rara de tempestades tropicais. Na quarta-feira, 2 de setembro de 2026, dois furacões poderosos e uma tempestade tropical em fortalecimento cruzavam o oceano ao mesmo tempo. O furacão Lowell chegou à categoria 5, o furacão Karina permanecia na categoria 4 e a tempestade tropical Marie devia se transformar em furacão no mesmo dia. Cientistas classificam a formação simultânea de três sistemas como algo raro de observar. A NOAA estima 69% de chance de este El Niño se tornar o mais forte já registrado. O fenômeno já provoca efeitos extremos em várias partes do mundo, embora o pico esteja previsto apenas para o fim do ano.
Dois furacões e uma tempestade tropical cada vez mais forte cruzavam nesta quarta-feira o Oceano Pacífico, cujas águas estão mais quentes devido à intensidade histórica do fenômeno climático El Niño. O furacão Lowell atingiu a categoria 5, a mais alta da escala, enquanto se deslocava para o oeste. Em seguida vinha o furacão Karina, de categoria 4. Ambos devem passar longe da costa do Havaí, segundo o Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC).
As ondas geradas pelo furacão Lowell se propagam para o norte e devem afetar algumas partes das ilhas havaianas nos próximos dias, o que pode provocar condições perigosas perto da costa. Há incerteza nas trajetórias. Existe a possibilidade de Lowell passar próximo das ilhas mais ocidentais do arquipélago. O Havaí ainda se recupera dos impactos do furacão Lala, que passou pelo sul da Grande Ilha no mês anterior, com ventos destrutivos e enchentes rápidas.
Lowell e Karina são seguidos pela tempestade tropical Marie, localizada a centenas de quilômetros da costa mexicana. O NHC indicou que ela deveria se converter em furacão ainda naquele dia. Os três sistemas avançavam sobre águas aquecidas pelo El Niño, o que explica a energia disponível para sua manutenção e intensificação.
Os três sistemas ativos
O furacão Lowell era o mais a oeste. Em determinado momento chegou à categoria 5 e depois oscilou, mas permaneceu um furacão maior por vários dias. Sua posição era de centenas de quilômetros ao sul-sudoeste do Havaí. O furacão Karina seguia mais a leste, também classificado como furacão maior. A tempestade tropical Marie, depois convertida em furacão, girava a sudoeste da ponta sul da Baja California. Nenhum dos três ameaçava terra firme de forma imediata no momento dos primeiros boletins, mas as ondulações e a umidade associada já tinham potencial para afetar áreas costeiras e, no caso de Lowell, o Havaí nos dias seguintes.
A presença simultânea desses três ciclones chama atenção justamente porque o Pacífico oriental e central raramente apresenta uma “fila” tão organizada de sistemas intensos ao mesmo tempo.
Por que essa sucessão é considerada rara
“O aquecimento causado pelo El Niño cria as condições para essas tempestades, que são alimentadas em grande parte por águas quentes”, explicou à AFP Julia Cole, climatologista da Universidade de Michigan. Quando o Pacífico tropical está mais quente do que o normal, observa-se um aumento de tempestades fortes. Uma sequência de três tempestades “é, definitivamente, algo raro de observar”, ressaltou.
Um precedente próximo ocorreu em 2015, outro ano de El Niño intenso. Naquela ocasião, o tufão Kilo, o furacão Ignacio, o furacão Jimena e a depressão tropical 14E cruzaram o Pacífico ao mesmo tempo. Foi a primeira vez registrada em que três furacões de categoria 4 existiram simultaneamente nas bacias do Pacífico oriental e central.
Como o El Niño prepara o terreno para ciclones atípicos
O El Niño é a fase de aquecimento de um ciclo natural chamado Oscilação Sul-El Niño (ENOS). Ele ocorre a cada dois a sete anos. Os ventos alísios, que sopram de leste para oeste e normalmente empilham águas quentes no Pacífico Ocidental, enfraquecem. Com isso, as águas quentes deslizam de volta para o leste e sobem à superfície. Quando essas temperaturas acima da média se mantêm por vários meses, formam-se mais tempestades e nuvens na região. O efeito se propaga pela atmosfera global: algumas áreas ficam mais quentes e secas, outras mais frias e úmidas.
No Pacífico, o resultado prático é água mais quente na superfície — o combustível principal dos ciclones tropicais — e menor cisalhamento vertical do vento. O cisalhamento é a diferença de velocidade e direção do vento entre altitudes. Quando ele é baixo, a tempestade consegue manter sua estrutura organizada e continuar se intensificando. Benjamin Kirtman, cientista atmosférico da Universidade de Miami, resumiu a situação: o sistema climático aqueceu de forma significativa nos últimos 20 anos e a anomalia de temperatura da superfície do mar já está em níveis quase recordes, bem no meio da temporada de furacões do Pacífico. “Não há outra forma de dizer: está suculento lá fora agora”, afirmou.
A NOAA calcula que o El Niño deste ano tem 69% de chance de se tornar o mais intenso já registrado. O fenômeno já provoca tempo extremo em várias partes do planeta, embora o pico esteja previsto apenas para o período entre outubro e dezembro, ou em torno de novembro.
Águas quentes, pouco vento cortante e temporada ativa
As condições de 2026 se somam a um oceano que já vinha mais quente por causa da tendência de longo prazo. O El Niño reduz o cisalhamento no Pacífico e, ao mesmo tempo, eleva a temperatura da água. Ciclones tropicais extraem energia da superfície oceânica. Quanto mais quente a água, mais energia disponível. Por isso a temporada no Pacífico oriental e central tende a ser mais ativa em anos de El Niño forte, ao contrário do que costuma ocorrer no Atlântico, onde o mesmo fenômeno geralmente aumenta o cisalhamento e inibe a formação de furacões.
O furacão Lowell, o furacão Karina e o sistema Marie se formaram e se intensificaram nesse ambiente. A raridade não está apenas na existência de três tempestades, mas na combinação de intensidade e alinhamento geográfico em um curto intervalo.
O precedente de 2015 e o que ele ensina
Em 2015, outro El Niño vigoroso coincidiu com temperaturas da superfície do mar bem acima da média no Pacífico. Três furacões de categoria 4 — Kilo, Ignacio e Jimena — existiram ao mesmo tempo. Foi um recorde para a bacia. A temporada daquele ano ficou entre as mais ativas já observadas no Pacífico oriental. O episódio de 2026 não replica exatamente o de 2015, mas segue a mesma lógica: oceano aquecido, atmosfera favorável e sistemas se desenvolvendo em série.
A comparação serve para lembrar que esses “trens” de ciclones não são impossíveis. Eles aparecem quando o oceano e a atmosfera se alinham de forma extrema.
Efeitos já sentidos e o que o fenômeno representa
O El Niño atual não se limita ao Pacífico. No Peru, maior produtor mundial de anchovas, o aquecimento das águas já prejudica a pesca. No Sudão, o fenômeno é associado ao atraso de chuvas importantes e à queda no nível do Nilo. Em outras regiões, o padrão clássico de El Niño traz secas, chuvas intensas ou calor fora de época. A mudança climática amplia esses impactos: a atmosfera mais quente retém mais umidade, o que pode tornar as chuvas associadas ao El Niño ainda mais extremas, e o ressecamento do solo agrava as secas.
No Havaí, além da recuperação do furacão Lala, a preocupação imediata era com as ondulações do furacão Lowell e com a possibilidade de a trajetória se aproximar das ilhas mais a oeste. Autoridades pediram que a população acompanhasse os boletins e tivesse planos de emergência prontos.
A temporada de furacões do Pacífico de 2026 já vinha marcada por previsões de atividade acima da média, em parte justamente por causa do El Niño forte esperado. A simultaneidade de Lowell, Karina e Marie tornou visível, em um único dia, o que os modelos e as medições de temperatura já indicavam: o Pacífico está excepcionalmente quente e receptivo à formação de ciclones intensos.
Lista dos principais fatores que favorecem os ciclones neste El Niño
Temperatura da superfície do mar acima do normal no Pacífico tropical
Redução do cisalhamento vertical do vento
Disponibilidade de umidade e energia para tempestades se organizarem
Persistência do padrão por vários meses
Amplificação dos efeitos por um clima global já mais quente
Esses elementos não “criam” furacões do nada. Eles aumentam a probabilidade de que distúrbios tropicais se desenvolvam, se intensifiquem e, em alguns casos, existam ao mesmo tempo.
Sistema
Intensidade relatada (início de setembro de 2026)
Posição aproximada
Observação principal
Furacão Lowell
Categoria 5 em determinado momento; depois categoria 4
Mais a oeste, ao sul do Havaí
Ondulações rumo às ilhas; trajetória com incerteza
Furacão Karina
Categoria 4
A leste de Lowell, longe do Havaí
Furacão maior, sem ameaça imediata a terra
Marie
Tempestade tropical em conversão para furacão
Centenas de km da costa mexicana / Baja California
Sistema mais a leste da sequência
A tabela resume o quadro descrito pelos boletins do NHC e pelas reportagens da época. Intensidades de ciclones mudam em questão de horas, por isso os números variam conforme o horário do aviso.
O El Niño deste ano ainda não atingiu o auge. Mesmo assim, já produz um cenário oceânico e atmosférico que os cientistas descrevem como favorável a tempestades fortes. A sucessão de três sistemas no Oceano Pacífico é a expressão mais visível, neste momento, dessa combinação de oceano quente e circulação alterada.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O que é o El Niño e por que ele está ligado a esses furacões? O El Niño é a fase quente do ciclo ENOS no Pacífico equatorial. Ele aquece a superfície do oceano e reduz o cisalhamento do vento na região, criando ambiente favorável para ciclones tropicais se formarem e se intensificarem.
2. Quantos sistemas estavam ativos ao mesmo tempo? Três: o furacão Lowell, o furacão Karina e a tempestade tropical Marie, que deveria se tornar furacão no mesmo dia.
3. Esses furacões ameaçam o Havaí? Os boletins iniciais indicavam passagem distante da costa. Havia, porém, incerteza na trajetória de Lowell e previsão de ondulações perigosas em partes das ilhas.
4. Por que cientistas dizem que a sequência é rara? Porque é incomum observar três ciclones tropicais intensos alinhados e ativos simultaneamente no Pacífico. O precedente mais citado é o de 2015, também em ano de El Niño forte.
5. Este El Niño pode ser o mais forte já registrado? A NOAA atribuiu 69% de probabilidade de que o evento de 2026 se torne o mais intenso da série histórica, com pico previsto para o fim do ano.
6. O El Niño já causa efeitos fora do Pacífico? Sim. Reportagens citaram impactos na pesca de anchovas no Peru e atraso de chuvas com queda no nível do Nilo no Sudão, além de padrões de seca e chuva extrema em outras regiões.
7. A mudança climática entra nessa história? Os cientistas citados afirmam que o sistema climático aqueceu nas últimas duas décadas e que um oceano e uma atmosfera mais quentes amplificam os impactos do El Niño, inclusive a intensidade das chuvas e a gravidade das secas.
Palavras-chave: El Niño, Oceano Pacífico, furacão Lowell, furacão Karina, tempestade tropical Marie, NOAA, Centro Nacional de Furacões, fenômeno climático, aquecimento oceânico, ciclones tropicais
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.