A CPTM Linha 10-Turquesa é uma das ferrovias mais antigas do Brasil em operação contínua. Inaugurada em 16 de fevereiro de 1867 pela São Paulo Railway, ela conecta o centro de São Paulo ao ABC Paulista em 38 km e 14 estações, passando por São Caetano do Sul, Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Ao longo de mais de 158 anos, a linha passou por eletrificação, estadualização, mudança de nome e, agora, pela maior transformação de sua história: um processo de concessão à iniciativa privada com investimentos previstos de R$ 6 bilhões.
A Ferrovia Mais Antiga de São Paulo em Operação: a História da Linha 10-Turquesa
Existe uma linha de trem em São Paulo que é mais velha do que a República brasileira. Mais velha do que a abolição da escravidão. Mais velha do que a maioria das ruas do centro da cidade. Quem passa pela Estação Brás ou embarca no Ipiranga raramente pensa nisso — mas está andando sobre trilhos que viram o Império, a ferrovia do café, a industrialização do ABC e o colapso de um modelo ferroviário que durou um século. Essa é a CPTM Linha 10-Turquesa.
Nasci e cresci em São Paulo. Vi essa linha ganhar cores, perder nome, ganhar outro. Vi estações reformadas, ramais desativados e o ABC se transformar. A história dessa ferrovia é a história da cidade — e ela começa muito antes de qualquer metrô existir.
Das Locomotivas a Vapor ao Trem Metropolitano: 158 Anos de Transformações
1867: O Nascimento da São Paulo Railway e a Conquista da Serra do Mar
A Linha 10-Turquesa foi construída pela extinta São Paulo Railway (SPR), tendo sido inaugurada em 16 de fevereiro de 1867. Era a primeira estrada de ferro do Estado de São Paulo, e sua engenharia foi um feito extraordinário para a época.
A Estação Luz, inaugurada junto com a ferrovia, completava o trecho ferroviário que ligava Santos a Jundiaí, com extensão de 159 quilômetros, com ligação nas estações Santos, Cubatão, Raiz da Serra, Alto da Serra (Paranapiacaba), Santo André, Rio Grande, Brás, Água Branca, Perus, Francisco Morato e Jundiaí.
O motivo da construção era econômico e urgente. No século 19, o café era a moeda da vez do País. Cultivado em fazendas no interior do Estado, o escoamento dessa produção até o Porto de Santos para exportação era arcaico. A ferrovia resolveu esse problema — e ao mesmo tempo criou as condições para o surgimento das cidades que hoje formam o ABC Paulista.
A paisagem urbana da capital paulista e da região metropolitana foi impactada de várias formas com a implantação da Estrada de Ferro. As estações ferroviárias começaram a concentrar as primeiras vilas, além de oficinas, armazéns e depósitos, e propagaram caminhos que interligavam povoados, chácaras e sítios. A indústria foi um legado importante da estrada de ferro, sobretudo no início do século XX, com a duplicação da linha, em vista da facilidade de acesso ao Porto de Santos e ao mercado consumidor de São Paulo.
Do Subúrbio à Eletrificação: as Décadas de Modernização
Com o crescimento populacional e industrial da região, a ferrovia precisou se adaptar. No início do Século XX, graças à construção de várias estações intermediárias entre as originais da SPR, iniciou-se a circulação de trens de subúrbio, inicialmente até Mauá. Na década de 1940, a linha seria eletrificada, mas continuou a prestar serviços com carros de madeira puxados por locomotivas até 1957, quando a Santos-Jundiaí adquiriu os primeiros TUEs Budd da antiga série 101 (atual série 1100 da CPTM).
A gestão da linha mudou de mãos ao longo do século. Em 1975, a linha passaria a ser administrada diretamente pela Rede Ferroviária Federal – RFFSA, que desde 1957 tinha a Santos-Jundiaí como uma de suas subsidiárias. Em 1984, passou para a Companhia Brasileira de Trens Urbanos – CBTU, que herdou todo o serviço de trens metropolitanos da Rede, serviço este que seria estadualizado em 1994, passando para as mãos da recém-fundada CPTM.
1994 a 2008: A Era CPTM e a Mudança de Identidade
A chegada à CPTM marcou o início de uma nova fase. A Linha 10-Turquesa era a Linha D, com paradas nas estações Brás, Santo André e Rio Grande da Serra, ligando Brás a Rio Grande da Serra, parada final. A linha também ganhou novo nome em 2008, Linha 10-Turquesa, com 38 quilômetros de extensão e 14 estações.
A mudança de nomenclatura fez parte de um projeto maior do Governo do Estado. A antiga Linha D levou essa nomenclatura durante anos, até março de 2008, quando o Governo do Estado de São Paulo alterou os nomes para atender um projeto de melhor integração com os Sistemas Metropolitanos de Transportes no que diz respeito à sinalização e ao conjunto.
Houve também perdas de percurso. Em novembro de 2001, em razão da baixa demanda de passageiros, a CPTMencerrou a operação em Paranapiacaba e os trens passaram a ter como estação terminal Rio Grande da Serra.
A Linha Hoje: Estrutura, Integração e o Que Ela Representa Para o ABC
14 Estações, 38 km e o Cotidiano de Milhares de Paulistanos
Hoje, a Linha 10-Turquesa percorre o trecho entre as estações Brás e Rio Grande da Serra, atravessando os municípios de São Caetano do Sul, Santo André, Mauá e Ribeirão Pires. São 14 estações distribuídas ao longo de 38 quilômetros — um corredor ferroviário que une o coração de São Paulo ao coração do ABC Paulista.
A integração com outros sistemas de transporte é um dos principais ativos da linha:
Linha 1-Azul do Metrô, com integração na Estação Luz
Linha 2-Verde do Metrô, via acesso à Estação Sacomã
Linhas 7 e 11 da CPTM, com integração gratuita
Terminais de ônibus municipais e intermunicipais ao longo do trajeto
Acesso ao terminal rodoviário interestadual próximo à área de Santo André
A importância da linha para a mobilidade urbana vai além dos números. Ela é, para centenas de milhares de trabalhadores do ABC, a única alternativa sobre trilhos entre a casa e o emprego.
A Melhoria Operacional Recente e o Tempo de Viagem
Os últimos anos trouxeram avanços concretos. Ao longo dos últimos anos, a Linha 10-Turquesa recebeu intervenções que melhoraram expressivamente a qualidade do serviço oferecido aos passageiros. Todo o esforço das áreas envolvidas no upgrade resultou na redução em 13 minutos do tempo de viagem, que passou de 56 minutos, em 2018, para 43 minutos no final de 2021.
A CPTM também anunciou um pacote de modernização específico para as estações mais defasadas. Foi firmado contrato no valor de R$ 97 milhões com o Consórcio LK-JZ para execução de obras nas estações Santo André e Mauá. As duas estações, construídas na década de 1970 durante a gestão da Rede Ferroviária Federal S.A., receberam poucas intervenções ao longo dos anos. Agora, passarão por processo de modernização que inclui a implantação de novos equipamentos e recursos de acessibilidade.
Entre os serviços previstos estão a construção de novos sanitários adaptados, implantação de passarela de travessia com elevadores, alteamento das plataformas conforme norma ABNT e instalação de piso podotátil.
O Futuro da Linha 10-Turquesa: Concessão, Novas Estações e R$ 6 Bilhões em Investimentos
A Maior Transformação em 158 Anos de História
A Linha 10-Turquesa está prestes a viver a mudança mais profunda desde a eletrificação. O Governo do Estado de São Paulo estruturou um processo de concessão à iniciativa privada dentro do chamado Lote ABC-Guarulhos, junto com a futura Linha 14-Ônix.
De acordo com o Governo do Estado, a concessão — cuja consulta pública foi aberta em 2025 — deverá gerar investimentos da ordem de R$ 6 bilhões, incluindo a reconstrução de estações, novas composições e melhorias de sinalização. No caso da Linha 10, estão previstas novas estações, como Bom Retiro, São Carlos/Parque da Mooca, ABC e Pari, ampliando a cobertura do sistema e fortalecendo a integração metropolitana. A futura concessionária também deverá adquirir 16 novos trens, embora a chegada das novas unidades esteja prevista apenas para o fim da década, por volta de 2030.
A Reconstrução da Estação Ipiranga e a Integração com o Monotrilho
Uma das obras mais emblemáticas do pacote envolve uma das estações mais antigas da linha. A obra prevê a reconstrução total da atual Estação Ipiranga, hoje integrante da Linha 10-Turquesa. O projeto transformará o local em um ponto estratégico de integração com o monotrilho da Linha 15-Prata, em expansão pela Zona Leste. Além da nova conexão, a estação será modernizada com acessibilidade universal, escadas rolantes, elevadores e plataformas mais amplas, dentro do padrão de estações recém-construídas do Metrô.
Há um peso simbólico que não pode ser ignorado. A Linha 10-Turquesa será o último ramal operado diretamente pela CPTM, que deve perder as demais linhas ao longo de 2026 para concessões à iniciativa privada. Isso significa que a linha que nasceu no Império, atravessou a República, sobreviveu a cinco décadas de gestão federal e chegou ao século XXI como trem metropolitano, será a última bandeira do modelo estatal de transporte ferroviário em São Paulo.
Para quem usa a linha todo dia e para quem entende o que ela representa para o ABC Paulista, esse é um momento de mudança de era.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Quando foi inaugurada a Linha 10-Turquesa da CPTM? A linha foi inaugurada em 16 de fevereiro de 1867 pela São Paulo Railway (SPR), sendo a primeira estrada de ferro do Estado de São Paulo.
2. Quantas estações e qual é a extensão da Linha 10-Turquesa? A linha possui 14 estações e 38 km de extensão, ligando a Estação Brás (com alguns serviços partindo da Estação Luz) até Rio Grande da Serra.
3. Quais municípios a Linha 10-Turquesa atende? A linha atende os municípios de São Paulo, São Caetano do Sul, Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
4. A Linha 10-Turquesa integra com o Metrô de São Paulo? Sim. Há integração com a Linha 1-Azul (Estação Luz), acesso à Linha 2-Verde próximo à Estação Sacomã, e integração gratuita com as Linhas 7-Rubi e 11-Coral da própria CPTM.
5. Quanto tempo demora a viagem completa na Linha 10-Turquesa? Após melhorias operacionais realizadas entre 2018 e 2021, o tempo de viagem caiu de 56 para aproximadamente 43 minutos no percurso completo.
6. A Linha 10-Turquesa vai ser privatizada? O Governo do Estado de São Paulo incluiu a Linha 10-Turquesa em processo de concessão à iniciativa privada, previsto para ocorrer em 2026, com investimentos estimados em R$ 6 bilhões no pacote Lote ABC-Guarulhos.
7. Quais novas estações estão previstas para a Linha 10-Turquesa? Com a concessão, estão previstas as estações Bom Retiro, São Carlos/Parque da Mooca, ABC e Pari, além da reconstrução completa da Estação Ipiranga, que ganhará integração com a Linha 15-Prata do Metrô.
8. Por que a linha se chamava Linha D-Bege? Antes de março de 2008, a linha era chamada de Linha D-Bege. A mudança para Linha 10-Turquesa foi parte de um projeto do Governo do Estado de São Paulo para padronizar a sinalização e identidade visual de todo o sistema metropolitano de transporte.
Associação dos Ex-Empregados da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (AEEFSJ) – História da Ferrovia
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OPINIÃO
ABCTudo Paulista
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.