O Dia que Pelé Começou a Mudar o Futebol
Em 7 de setembro de 1956, um menino de 15 anos chamado Edson Arantes do Nascimento entrou em campo no segundo tempo de um amistoso entre Santos e o Corinthians de Santo André, no Estádio Américo Guazzelli, no Grande ABC Paulista. Ainda chamado de Gasolina pelos companheiros, ele substituiu Del Vecchio, recebeu um lançamento e deixou o goleiro Zaluar sem reação — bola entre as pernas, rede balançada. Era o sexto gol do Santos em uma goleada de 7 a 1. Era também o primeiro de 1.282 gols na carreira profissional de quem o mundo passaria a chamar de Pelé. O 7 de Setembro brasileiro tem uma camada de história que vai muito além da política — começa exatamente aqui.
- O Garoto que Chegou Tímido e Fez o Futebol Gritar
- A Partida, o Gol e a Vítima Que Nunca Esqueceu
- Como o Jogo se Desenvolveu
- O Estádio que Não Existe Mais
- O Menino Que Quase Desistiu Depois do Primeiro Gol
- A Crise de Confiança Que Ninguém Conta
- O Que o 7 de Setembro Tem a Ver com Santo André
- Uma Data, Dois Significados
- O Corinthians de Santo André: Protagonista Involuntário da História
- O Número Final: 1.282 Gols, e o Primeiro Foi Aqui
- Perguntas Frequentes (FAQ)
O Garoto que Chegou Tímido e Fez o Futebol Gritar
Julho de 1956. Um garoto de 15 anos chega ao Santos Futebol Clube depois de uma negociação articulada por Waldemar de Brito, ex-jogador que o havia descoberto em Bauru, no interior de São Paulo. Ele vinha de Três Corações, em Minas Gerais, e carregava mais futebol do que palavras. Reservado, sério, sorria bastante mas falava pouco. No primeiro treino com o elenco profissional, marcou quatro gols. Os companheiros observaram, impressionados. A história já estava começando a se escrever — só que ninguém sabia ainda a dimensão do que estava diante deles.
O apelido era Gasolina. O nome no documento, Edson Arantes do Nascimento. O destino, ainda um rascunho.
Menos de dois meses após sua chegada à Vila Belmiro, o banco de reservas do Santos foi convocado para um amistoso especial. A data: 7 de setembro de 1956. O adversário: o Corinthians de Santo André, clube do ABC Paulista que disputava a partida pelo Troféu Independência, competição simbólica promovida pela Prefeitura de Santo André em comemoração ao feriado nacional. O local: o Estádio Américo Guazzelli, na cidade do Grande ABC.
A Partida, o Gol e a Vítima Que Nunca Esqueceu
Como o Jogo se Desenvolveu
O Santos foi dominante. Na primeira etapa, construiu uma vantagem confortável. O placar já refletia o desequilíbrio entre as equipes quando, no segundo tempo, o técnico decidiu movimentar o banco. Edson foi chamado. Substituiu Del Vecchio e entrou em campo com aquelas canelas finas que já eram comentadas pelos mais velhos do elenco.
Aos 36 minutos do segundo tempo, veio o lance. O zagueiro Hélvio, do Santos, afastou de cabeça. A bola sobrou no meio-campo. O companheiro Jair lançou o garoto em profundidade. O defensor do Corinthians Andreense, Chanca— cujo nome completo era Antonio Schank —, tentou acompanhar o lance.
O goleiro Zaluar ficou cara a cara com aquelas canelas finas. O relato que ele deixou é um dos mais citados nos registros históricos sobre esse momento:
“Eu tinha condições de defender aquela bola. Quando o Jair lançou o guri, gritei para o Chicão cobrir o Mário. A bola foi certinha. O Mário levou um chapéu e o Chicão quando apareceu o guri já estava diante de mim. Quando vi aquelas canelas finas, não tive coragem de entrar duro. Gritei apenas para o garoto soltar a bola. O gol me deixou desorientado, pois Pelé era um moleque. O pior é que a bola foi por entre as minhas pernas. Depois, no final, acabei ainda levando um gol de falta do Jair. No vestiário já tinha resolvido parar com o futebol.”
O relato de Zaluar, preservado pelo Centro de Memória do Santos FC e citado no livro Casaca e Chuteiras, de Silvestre Gorgulho, é uma das fontes primárias mais ricas sobre esse momento histórico. Um goleiro humilhado por um menino de 15 anos — e consciente o suficiente para registrar que não teve coragem de entrar duro nas “canelas finas” — é, por si só, uma passagem que diz muito sobre o impacto imediato que Pelé causava nos adversários, mesmo antes de ser Pelé.
O placar final foi 7 a 1 para o Santos. O primeiro gol da história de Pelé foi o sexto do Peixe naquela tarde.
O Estádio que Não Existe Mais
O Estádio Américo Guazzelli, onde esse momento histórico aconteceu, não existe mais. O local foi demolido ao longo dos anos, e onde havia um campo de futebol com arquibancada, o Corinthians de Santo André adaptou sua sede para sobreviver economicamente — hoje o clube sobrevive, entre outras coisas, com aluguel de quadras.
O presidente do clube, identificado como Jarrão, reconheceu que há um vazio deixado pelo falecimento de Pelé e que o clube planejava fazer algo para marcar que ali é o local onde o Rei marcou seu primeiro gol profissional, como uma forma de homenageá-lo. bemparana
A ironia do tempo: o golpe inicial da maior carreira goleadora da história do futebol foi dado em um estádio que a própria cidade não conseguiu preservar. O Grande ABC carrega esse fato com uma mistura de orgulho e nostalgia — a história está nos livros e nos relatos dos que viveram, mas o lugar físico virou pó.
O Menino Que Quase Desistiu Depois do Primeiro Gol
A Crise de Confiança Que Ninguém Conta
O que aconteceu depois do primeiro gol de Pelé seria improvável em qualquer roteiro de cinema. Após o amistoso de 7 de setembro, ele perdeu um pênalti em uma partida decisiva pela equipe júnior do Santos, que terminou com o vice-campeonato. Devastado, o garoto escreveu para os pais: “Sei que nunca serei um grande jogador. Eu não nasci para esta carreira. Isso acaba de ser demonstrado.”
Era o mesmo menino que havia acabado de marcar o primeiro gol de uma carreira com 1.282 tentos. A distância entre a grandeza e a dúvida, naquele momento, cabia em uma carta.
Ele voltou. Se juntou definitivamente ao elenco profissional em janeiro de 1957. Os primeiros quatro meses foram duros — apenas seis gols em 21 jogos, o pior desempenho por período equivalente em toda a sua trajetória de 18 anos no Santos. Mas persistiu.
O que aconteceu depois já é história universal.
O Que o 7 de Setembro Tem a Ver com Santo André
Uma Data, Dois Significados
Para o Grande ABC, o 7 de setembro carrega uma camada específica de significado que pouquíssimas regiões do Brasil podem reivindicar. No mesmo dia em que o país comemora a Independência do Brasil — proclamada por Dom Pedro I em 1822 às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo —, a cidade de Santo André foi palco do início da maior carreira do futebol mundial.
O amistoso que viabilizou esse momento histórico foi justamente o Troféu Independência, promovido pela Prefeitura de Santo André para celebrar a data cívica. A coincidência entre as duas efemérides — uma nacional, outra esportiva — cria uma sobreposição de datas que poucas cidades conseguem ostentar.
| Data | Acontecimento | Local |
|---|---|---|
| 7 de setembro de 1822 | Independência do Brasil | Às margens do Ipiranga, SP |
| 7 de setembro de 1956 | Primeiro gol de Pelé | Estádio Américo Guazzelli, Santo André |
| 7 de setembro de 2026 | 70 anos do primeiro gol de Pelé | Memória do Grande ABC |
O Corinthians de Santo André: Protagonista Involuntário da História
O Corinthians de Santo André não foi apenas o adversário de um amistoso qualquer. Foi, sem querer, o pano de fundo do primeiro capítulo da maior narrativa do futebol. O clube — que tem o nome em homenagem ao time inglês de mesmo nome — continuou existindo, mas em escala muito diferente de seu momentâneo adversário de 1956.
A história do clube no ABC Paulista é de sobrevivência. Sem estádio próprio, adaptando a sede para gerar receita, o Corinthians Andreense carrega consigo o peso e o orgulho de ter sido a vítima do primeiro gol de Pelé. É uma distinção rara no futebol mundial: pouquíssimas equipes podem afirmar que foram a primeira barreira que o maior jogador de todos os tempos superou.
O Número Final: 1.282 Gols, e o Primeiro Foi Aqui
Há debate legítimo sobre o total de gols na carreira de Pelé. Algumas contagens chegam a 1.282, outras — mais conservadoras e restritas a jogos oficiais — apontam números distintos. O que não está em debate é onde tudo começou: Santo André, 7 de setembro de 1956, Estádio Américo Guazzelli, goleiro Zaluar, bola entre as pernas.
O gol número mil de Pelé foi marcado em 19 de novembro de 1969, no Estádio do Maracanã, contra o Vasco da Gama, em um pênalti que parou o Brasil inteiro. O goleiro que sofreu foi Andrada. O Brasil parou para ver. O mundo transmitiu ao vivo. Mas o goleiro que virou história antes de tudo isso foi Zaluar, um guarda-redes do Corinthians de Santo André que não teve coragem de entrar duro naquelas canelas finas de um menino de 15 anos — e que, segundo ele mesmo, saiu do vestiário naquele dia querendo parar de jogar futebol.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Quando e onde Pelé marcou seu primeiro gol profissional?
Em 7 de setembro de 1956, no Estádio Américo Guazzelli, em Santo André, Grande ABC Paulista, durante um amistoso entre Santos e Corinthians de Santo André pelo Troféu Independência.
2. Quantos anos Pelé tinha quando marcou o primeiro gol?
Pelé tinha 15 anos. Ele havia chegado ao Santos menos de dois meses antes, vindo de Bauru, interior de São Paulo.
3. Qual foi o placar da partida?
O Santos venceu por 7 a 1. O gol de Pelé foi o sexto do time.
4. Quem foi o goleiro que tomou o primeiro gol de Pelé?
O goleiro era Zaluar, do Corinthians de Santo André. Ele deixou um relato histórico sobre o lance, afirmando que não teve coragem de entrar duro nas “canelas finas” do menino.
5. O estádio onde Pelé marcou o primeiro gol ainda existe?
Não. O Estádio Américo Guazzelli foi demolido. No local funciona hoje a sede adaptada do Corinthians de Santo André, que sobrevive com aluguel de quadras, entre outras atividades.
6. Quantos gols Pelé marcou na carreira profissional?
O total mais citado é 1.282 gols na carreira profissional. O primeiro foi em Santo André; o milésimo foi contra o Vasco, no Maracanã, em 1969.
7. Por que a partida foi realizada em 7 de setembro?
O amistoso fazia parte do Troféu Independência, competição simbólica promovida pela Prefeitura de Santo André para celebrar o feriado nacional do Dia da Independência do Brasil.
Referências:
- Correio Braziliense / Blog Drible de Corpo — Primeiro gol do Rei Pelé faz 65 anos: blogs.correiobraziliense.com.br
- Trivela — Ha 60 anos, o prenúncio da mais sublime história: trivela.com.br
- Bem Paraná / Estadão Conteúdo — Estádio que Pelé marcou 1º gol não existe mais: bemparana.com.br
OPINIÃO
ABCTudo Paulista
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.
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