A Prefeitura de Santo André, por meio do Semasa e da Secretaria de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, concluiu a etapa digital da consulta pública para a criação da Política Municipal de Mudança do Clima. Com a participação expressiva de 1.214 moradores, o levantamento revelou que a prevenção de enchentes e a arborização urbana são as maiores urgências da população. A partir de março, o projeto entra em uma nova fase com oficinas presenciais nos bairros. O documento final, que organiza as demandas em 32 eixos temáticos e foca em Soluções Baseadas na Natureza, será transformado em projeto de lei e enviado à Câmara Municipal ainda neste semestre, impactando diretamente a infraestrutura e a economia local do Grande ABC.
Para quem acompanha a trajetória histórica de Santo André e do Grande ABC, a transformação da paisagem é nítida. A região, que durante o século XX foi o grande motor industrial do Brasil, pavimentando quilômetros de solo para abrigar fábricas e montadoras, agora se depara com a fatura ambiental desse progresso. As mudanças climáticas em Santo André deixaram de ser um tema restrito a debates acadêmicos e invadiram a sala de estar, as ruas comerciais e a rotina do cidadão.
Neste contexto de urgência, a conclusão da consulta pública para a construção da primeira Política Municipal de Mudança do Clima de Santo André representa um marco civilizatório. O processo digital, liderado pela Secretaria de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas e pelo Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André), reuniu a contribuição de 1.214 pessoas. Esse número robusto de participações não é um mero detalhe estatístico; ele evidencia que a emergência climática se tornou uma prioridade central para a população.
Quando uma cidade com o peso demográfico e econômico de Santo André decide reescrever suas diretrizes de desenvolvimento urbano com foco no clima, o impacto reverbera em toda a região metropolitana. A nova legislação que nascerá desse processo participativo ditará como os bairros serão construídos, como a economia local se adaptará e como o município lidará com as águas das chuvas que, anualmente, desafiam a infraestrutura local.
O Paradoxo do Risco: Por Que as Enchentes Lideram o Medo?
Ao analisar o balanço das contribuições divulgadas pelo Semasa, um dado salta aos olhos e revela muito sobre a psicologia urbana dos moradores do Grande ABC. Segundo o levantamento, apenas cerca de 9% dos participantes declararam residir fisicamente em áreas de risco geológico mapeado (como encostas sujeitas a deslizamentos ou fundos de vale). No entanto, as enchentes e os eventos extremos foram apontados como a preocupação central pela esmagadora maioria dos respondentes.
Como explicar esse fenômeno? A resposta está na dinâmica da cidade. Uma enchente não afeta apenas quem tem a casa invadida pela água; ela paralisa a metrópole inteira.
Quando chove forte na cabeceira do Rio Tamanduateí ou em seus afluentes, o impacto é sistêmico:
O transporte público (ônibus e trens) sofre atrasos severos ou interrupções, impedindo que o trabalhador chegue ao seu destino.
A economia local sangra, pois as lojas fecham as portas mais cedo e mercadorias deixam de ser entregues.
A saúde na região é colocada em xeque devido ao risco de doenças de veiculação hídrica (como a leptospirose) e ao trânsito de ambulâncias retido nos congestionamentos.
Portanto, o apontamento massivo das enchentes como prioridade indica uma consciência coletiva ampliada. O cidadão andreense entende que a infraestrutura cinza (asfalto e concreto) chegou ao seu limite de absorção e que os impactos climáticos são, na prática, um problema de todos.
A Resposta da População: Soluções Baseadas na Natureza
Diante do diagnóstico do medo das águas e das ondas de calor, a população apontou o antídoto. Entre os temas mais recorrentes nas 1.214 participações, a arborização urbana e a expansão de áreas verdes lideraram o ranking absoluto de sugestões. Todas as ideias coletadas foram minuciosamente organizadas em 32 eixos temáticos pelos técnicos da prefeitura.
Para a gestão municipal de Santo André, esse forte apelo popular valida uma mudança de paradigma na engenharia da cidade: a adoção das Soluções Baseadas na Natureza (SBN). Mas o que isso significa na prática diária?
Em vez de construir apenas mais piscinões de concreto (que são importantes, mas não definitivos), as SBNs propõem o uso da própria biologia para curar o ambiente urbano. Isso inclui:
Jardins de Chuva: Áreas verdes rebaixadas nas calçadas que absorvem a água das tempestades antes que elas cheguem às galerias pluviais.
Calçadas Permeáveis: Substituição do cimento tradicional por materiais que permitem a infiltração da água no lençol freático.
Corredores Ecológicos: Plantio estratégico de árvores interligando os parques da cidade (como o Celso Daniel, o Central e o Parque Ipiranguinha), criando caminhos sombreados que reduzem as ilhas de calor e melhoram a qualidade do ar.
Mas afinal, como isso afeta meu bolso?
A implementação da Política Municipal de Mudança do Clima não é apenas uma questão ecológica; é um fator determinante para as suas finanças. “Como isso afeta o meu bolso?” é a pergunta legítima de todo contribuinte. A resposta se desdobra em três vias principais:
Valorização Imobiliária: Bairros com alta densidade de arborização urbana e infraestrutura verde que não alagam são, historicamente, os mais valorizados pelo mercado imobiliário. A aprovação de leis que forcem a ampliação de áreas verdes tende a elevar o valor venal e comercial das propriedades em Santo André, beneficiando proprietários e investidores.
Redução de Custos com Sinistros e Seguros: Os eventos extremos geram prejuízos milionários anualmente com perdas de veículos em alagamentos, destelhamentos por vendavais e danos a comércios. Ao focar na mitigação e prevenção de enchentes, a cidade diminui os riscos de perdas materiais, o que, a longo prazo, pode até mesmo baratear as apólices de seguro residencial e automotivo na região.
Eficiência Energética: Ruas arborizadas diminuem a temperatura ambiente (mitigando o efeito de “ilha de calor”). Imóveis cercados por árvores exigem menos uso de ar-condicionado e ventiladores durante o verão, resultando em uma conta de energia elétrica substancialmente mais barata no final do mês.
A Construção Coletiva e a Visão da Gestão
A riqueza desta consulta pública reside no fato de não ter sido um processo imposto de cima para baixo. Elaine Cristina da Silva Colin, gerente do Semasa e coordenadora da iniciativa, traduziu o sentimento da equipe técnica ao analisar o engajamento cívico:
“O levantamento mostra ainda que a maioria das contribuições partiu de pessoas que residem na cidade e, aproximadamente 71% do total de respondentes manifestaram interesse em continuar acompanhando os próximos passos da política climática, o que demonstra o engajamento e o potencial de mobilização social neste processo de escuta e construção coletiva”.
É fundamental destacar que essa consulta digital não partiu do zero. Ela é a maturação de um processo participativo contínuo, que teve seus primeiros passos estruturados na Conferência Municipal de Meio Ambiente de 2024 e foi aprofundado na Conferência Municipal das Cidades de 2025.
Esses grandes encontros democráticos anteriores proporcionaram espaços de diálogo essenciais e ajudaram a priorizar as demandas, estabelecendo os cinco pilares que agora norteiam a elaboração da lei climática municipal.
Tabela: Os 5 Eixos Estratégicos da Política Climática
Eixo Estratégico
Objetivo Principal na Prática Urbana
Mitigação
Reduzir a emissão de gases de efeito estufa (ex: transição para transporte público limpo e energias renováveis).
Adaptação e Preparação para Desastres
Criar infraestruturas robustas para suportar tempestades e secas severas (foco total na prevenção de enchentes).
Justiça Climática
Garantir que as populações mais vulneráveis em áreas periféricas não sofram desproporcionalmente com os impactos climáticos.
Transformação Ecológica
Estimular a transição da economia local para modelos de negócios sustentáveis e de economia circular.
Governança e Educação Ambiental
Criar leis, comitês de fiscalização e educar as novas gerações para a convivência harmoniosa com a natureza local.
O Peso Institucional: O Comitê Técnico Intersetorial
A gestão pública aprendeu que o clima não respeita as divisões de secretarias em um organograma. Não adianta a Secretaria de Meio Ambiente plantar árvores se a Secretaria de Obras impermeabilizar o solo.
Por isso, Santo André estabeleceu o Comitê Técnico de Mudanças Climáticas. Trata-se de um grupo de trabalho multidisciplinar de alto nível, com a participação de representantes do poder público de diversas pastas. O envolvimento vai desde a Saúde e a Assistência Social (para lidar com o impacto do calor em idosos) até o Desenvolvimento Urbano, Habitação, Mobilidade Urbana e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Geração de Emprego. A união de pastas cruciais como a Secretaria de Infraestrutura e Obras e a Secretaria de Manutenção e Serviços Urbanos garante que o planejamento saia do papel e se transforme em cimento ecológico nas ruas.
Próximos Passos: As Oficinas Chegam aos Bairros
Com o encerramento da etapa on-line que reuniu os 1.214 apontamentos, o processo de elaboração da lei avança para as ruas. O teclado dá lugar ao microfone.
A partir de março, a prefeitura e o Semasa darão início a uma série de oficinas territoriais presenciais espalhadas pelos bairros de Santo André. O objetivo é ampliar o diálogo com a sociedade civil de forma presencial, permitindo que moradores que não tiveram acesso ou afinidade com a consulta digital possam expressar as necessidades específicas das ruas onde vivem. A agenda completa dessas reuniões será divulgada em breve pelos canais oficiais.
Após a realização destas oficinas de campo, o processo seguirá um rito técnico e democrático rigoroso:
Análise técnica consolidada de todas as contribuições (digitais e presenciais).
Realização de audiências públicas oficiais.
Elaboração formal do texto do Projeto de Lei.
Abertura de uma nova consulta pública para validação do texto redigido.
Envio para votação na Câmara Municipal.
A previsão da administração municipal é que todo esse processo seja concluído ainda neste primeiro semestre. Com a aprovação, Santo André instituirá a sua primeira Política Municipal de Mudança do Clima, servindo como um instrumento estruturante de desenvolvimento urbano sustentável, perfeitamente alinhado às agendas nacionais e aos rigorosos compromissos globais estabelecidos pela ONU para o enfrentamento da crise climática.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O que é a Política Municipal de Mudança do Clima de Santo André?
É um conjunto de leis e diretrizes que o município está criando para preparar a cidade contra eventos climáticos extremos (como tempestades e ondas de calor), focar na prevenção de enchentes, aumentar a arborização e reduzir as emissões de gases poluentes.
2. Quantas pessoas participaram da consulta pública digital?
O processo digital contou com a participação ativa de 1.214 pessoas, a grande maioria formada por residentes da cidade interessados no desenvolvimento urbano e na segurança ambiental.
3. Quais foram as maiores preocupações e sugestões da população?
A preocupação central disparada foi com as enchentes e eventos climáticos extremos. Como principal solução, os moradores sugeriram massivamente o aumento da arborização urbana e a expansão das áreas verdes na cidade.
4. Como posso participar das próximas etapas do projeto?
A partir de março, o Semasa realizará oficinas presenciais nos bairros de Santo André. A agenda será divulgada em breve. Além disso, a população pode enviar dúvidas e sugestões a qualquer momento para o e-mail oficial: politicasclimaticas@semasa.sp.gov.br.
5. Quando essa nova lei climática deve ser aprovada?
A previsão da Prefeitura de Santo André é que todas as etapas de consulta, oficinas, audiências públicas, redação do projeto e votação na Câmara Municipal sejam concluídas ainda no primeiro semestre deste ano.
Referências e Fontes
Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André). Balanço Oficial da Consulta Pública de Mudanças Climáticas. 2026.
Prefeitura de Santo André. Relatórios das Conferências Municipais de Meio Ambiente e Cidades. 2024/2025.
Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Relatórios sobre Soluções Baseadas na Natureza e Adaptação Urbana.
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OPINIÃO
ABCTudo Paulista
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.