O Fim do Diploma: Tarcísio está Correto?
Compartilhe: Este artigo analisa a polêmica declaração do governador Tarcísio de Freitas de que “O diploma cada vez tem menos relevância”. Investigamos se esta afirmação reflete a realidade do mercado de trabalho, especialmente no Grande ABC. Confrontamos a valorização crescente de “habilidades” (como comunicação e resolução de problemas) com dados estatísticos da OCDE, que mostram […]
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• Atualizado em: 17 de novembro de 2025
Este artigo analisa a polêmica declaração do governador Tarcísio de Freitas de que “O diploma cada vez tem menos relevância”. Investigamos se esta afirmação reflete a realidade do mercado de trabalho, especialmente no Grande ABC. Confrontamos a valorização crescente de “habilidades” (como comunicação e resolução de problemas) com dados estatísticos da OCDE, que mostram que o diploma de ensino superior no Brasil ainda garante um salário, em média, 148% maior. O texto explora o contexto histórico da educação na região (do SENAI à UFABC) e questiona o impacto dessa narrativa para os moradores do ABC, que ainda veem na universidade a principal forma de ascensão social e econômica. Conclui-se que, embora as habilidades sejam essenciais, o diploma ainda funciona como um divisor de águas financeiro e social no país.
Tarcísio está Correto?
Pois é, meu caro leitor. Quando eu acho que já vi de tudo nesses mais de 20 anos cobrindo o Grande ABC aqui pelo ABCTudo.com.br, me aparece outra dessa.
Eu sou Analista de sistemas, nasci e cresci aqui em Santo André. Já vi prefeito prometer hospital que nunca saiu do papel, já vi a Perimetral parar (de novo), e já vi o centro de Santo André mudar de cara umas dez vezes. Morei um tempo fora, em Londres, e vi como as coisas funcionam no “primeiro mundo”. E o que eu aprendi é que, por mais que a gente mude, certas coisas demoram pra mudar.
Estava eu aqui, fechando uma matéria sobre os buracos na malha viária (que tá osso, diga-se de passagem), quando vejo a fala do governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos). O homem disse, com todas as letras, que “O diploma cada vez tem menos relevância”.
Uma declaração dessas às vésperas do segundo dia do Enem. Pense bem. Milhões de jovens, muitos deles aqui da nossa região, de São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá… suando a camisa, gastando o que não têm em cursinho, pegando o busão lotado pra ir fazer uma prova que, supostamente, vale o futuro.
E aí, o governador, do alto do Palácio dos Bandeirantes, manda essa. “O diploma cada vez tem menos relevância”.
Aí eu fico pensando. O governador tem razão ou falou bobagem? O mercado de trabalho mudou tanto assim que o “canudo” virou papel de enfeite?
O que Tarcísio realmente disse?
Como Analista de sistemas, a primeira coisa que faço é ir além da manchete. Onde ele disse isso? Num evento sobre a expansão do Ensino Médio Técnico nas escolas do Estado.
Ahá. Isso já muda um pouco a conversa.
Tarcísio de Freitas estava defendendo o ensino técnico. Ele disse: “O mercado está cada vez mais interessado em saber quais são suas habilidades e menos onde você se formou”.
E quais seriam essas habilidades “mágicas” que valem mais que um diploma? Segundo ele:
- Dominar o português (“Você se comunica bem?”).
- “Saber transformar problemas grandes em problemas menores”.
- Falar outros idiomas.
Francamente, eu concordo que tudo isso é fundamental. No meu trampo aqui no ABCTudo, se eu não souber me comunicar e resolver B.O., eu tô frito. Mas, mas a ironia é que muito disso eu aprendi… Não só isso, mas a ter senso crítico, a checar fontes, a ter disciplina.
O ponto do governador é que o técnico é um caminho. E ele está certo.
O Contexto do “Velho Morador” do ABC
Quem é mais antigo como eu aqui no Grande ABC lembra bem. Nos anos 80 e 90, o “sonho” de muita família em Santo André ou São Bernardo era o filho ter um emprego na Volks, na Ford, na GM. Era a era das montadoras.
E o caminho pra isso? Muitas vezes era o SENAI. Um diploma técnico do SENAI era ouro puro. Meu vizinho, o seu Osvaldo, lá da Vila Pires, sustentou a família toda com um diploma de torneiro mecânico. Ninguém questionava o valor daquilo.
Aí o tempo passou. O Grande ABC mudou. A economia local deixou de ser só indústria. O setor de serviços cresceu uma barbaridade. A gente viu a Metodista crescer, a FEI se consolidar, a Fundação Santo André formar gerações.
E de repente, nos anos 2000, “brotou” a UFABC. Uma universidade federal de ponta, aqui no nosso quintal, em Santo André e São Bernardo. O “canudo” de nível superior virou a nova meta. O diploma virou o passaporte pra uma vida melhor.
E agora, o Tarcísio me vem e diz que esse passaporte não vale mais? Calma lá.
Os dados não mentem (e eles são teimosos)
Como já dizia minha amiga que fazia Estatística na UniCamp, você coloca os números na parede até que eles digam o que você quer ouvir.
Aí, meu caro leitor do ABCTudo, eu fui checar os dados. Porque opinião qualquer um tem, mas dado é dado. E os dados, meus amigos, contam uma história bem diferente da que o governador insinuou.
O próprio artigo que repercutiu a fala dele trouxe os números, que eu fui confirmar no relatório Education at a Glance 2025, da OCDE (a organização dos países ricos).
Preste atenção nisso:
- Diploma dá dinheiro. Muito dinheiro. No Brasil, adultos (25 a 64 anos) que concluíram o ensino superior ganham, em média, 148% a mais do que aqueles que pararam no ensino médio.Deixa eu repetir, pra ver se o pessoal do café aqui do lado ouve: CENTO E QUARENTA E OITO POR CENTO.Não é 10%, não é 20%. É mais que o dobro. É quase o triplo. É o sujeito que ganha R$ 2.000 (com ensino médio) vendo o colega de baia (com superior) ganhar R$ 5.000.
- No Brasil, o diploma vale MAIS que lá fora. Essa diferença salarial de 148% é uma das maiores do mundo. A média dos países da OCDE é de um salário 54% maior pra quem tem canudo. Ou seja, proporcionalmente, o diploma no Brasil é um diferencial muito maior do que na Europa ou nos EUA.
- O problema do Brasil não é excesso de diploma, é falta. O governador fala como se todo mundo estivesse saindo da faculdade e não achando emprego. Mas a realidade é o oposto. No Brasil, só 24% dos adultos têm ensino superior. Sabe qual é a média da OCDE? 49%.
O Brasil ainda precisa, e muito, aumentar o número de formados em universidades.
Mas afinal, como isso afeta o meu bolso (e o meu futuro)?
O debate real não é “Diploma vs. Habilidades”. Isso é uma armadilha. É óbvio que precisamos dos dois.
O que mudou, e isso é verdade, é que o mercado de tecnologia (o Google, o Facebook, a turma do “Faria Lima”) começou a valorizar habilidades específicas (programação, design, marketing digital) que podem ser aprendidas em cursos rápidos, os “bootcamps”.
Tem programador hoje ganhando R$ 10 mil sem nunca ter pisado numa faculdade de Ciências da Computação. Isso é um fato.
Mas… e o resto?
Tenta ser médico sem diploma. Tenta ser engenheiro civil e assinar uma planta aqui pra prefeitura de Santo André sem CREA. Tenta ser advogado e entrar no Fórum sem OAB.
O diploma não é só sobre a habilidade técnica. É sobre pensamento crítico. É sobre resiliência (aguentar 4, 5 anos de estudo não é pra qualquer um). É sobre networking.
O perigo da fala do Governador para o ABC
Francamente, a fala do Tarcísio é um desserviço para o morador do ABC.
Por quê? Porque o Grande ABC está numa encruzilhada. A gente não é mais só indústria. A gente é serviço, a gente é conhecimento (a UFABC tá aí pra provar), a gente é inovação.
Quando o jovem que tá saindo de uma escola pública aqui em Diadema ou Mauá ouve o governador do Estado dizer que o diploma “não vale nada”, ele pensa o quê?
“Ah, nem vou me matar de estudar pro Enem. Nem vou tentar uma FATEC, uma ETEC, ou a UFABC. O governador disse que não precisa, que o negócio é ‘saber se comunicar’.”
Uma coisa é valorizar o ensino técnico (o que é ótimo, precisamos de bons técnicos, o Grande ABC clama por eles!). Outra, bem diferente, é desmerecer a universidade.
Justo a universidade que, segundo TODOS os dados, é o que realmente muda o patamar salarial e a economia local no Brasil.
A gente aqui do ABCTudo vê a luta diária. O cara que pega o trólebus lotado em São Bernardo depois de um dia inteiro de trampo pra chegar na faculdade à noite em Santo André. Esse cara tá buscando o diploma.
E quer saber? Ele não está errado.
Conclusão (O café esfriou)
E aí, o que você acha? O Tarcísio tem um ponto ou o diploma ainda é o melhor caminho?
Na minha modesta opinião, de quem já rodou muito por essa Santo André e pelo mundo: o governador mistura as coisas. O mercado quer habilidades? Com certeza. O mundo mudou.
Mas no Brasil de 2025, o diploma não é só um papel. É um divisor de águas. É o que separa um salário de dois mil de um salário de cinco.
Eu tô aqui na redação, tomando mais um café (agora frio) e só vendo o circo pegar fogo.
Deixa sua opinião aí nos comentários. Você acha que o canudo perdeu valor ou o governador viajou?
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O que Tarcísio de Freitas disse exatamente sobre diplomas? Ele disse que “O diploma cada vez tem menos relevância” e que o mercado está mais interessado em habilidades, como boa comunicação e resolução de problemas, do que onde a pessoa se formou.
2. O diploma realmente vale menos hoje? Não de acordo com os dados. Embora habilidades práticas sejam muito valorizadas, o diploma de ensino superior ainda é o maior diferencial para aumento de salário no Brasil. A era digital criou novas carreiras (tecnologia) onde a experiência às vezes vale mais, mas isso não é a regra para a maioria dos setores.
3. Qual a diferença de salário de quem tem diploma no Brasil? Segundo dados da OCDE (2025), brasileiros com ensino superior ganham, em média, 148% a mais do que aqueles que têm apenas o ensino médio.
4. Por que o governador falou isso agora? A declaração foi dada durante um evento de promoção da expansão do Ensino Médio Técnico no Estado de São Paulo. O contexto era de valorização da formação técnica como alternativa ao mercado de trabalho.
5. O Ensino Técnico substitui a Universidade? Não. São caminhos diferentes, ambos importantes. O Ensino Técnico é excelente para uma inserção mais rápida no mercado de trabalho em funções específicas. A universidade (bacharelado, licenciatura) geralmente oferece uma formação mais ampla, teórica e crítica, ligada a salários mais altos a longo prazo e cargos de gestão ou pesquisa.
OPINIÃO
ABCTudo Paulista
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.
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