Por
Danillo Leite
•
Publicado em: 10 de março de 2026
•
Atualizado em: 10 de março de 2026
Neste mês de março de 2026, o Sesc Santo André se prepara para receber a emocionante estreia do espetáculo Urucum – As Árvores Não Têm Culpa. Celebrando duas décadas de resistência e arte da Cia. Estrela D’Alva de Teatro, a obra propõe um mergulho profundo na ancestralidade feminina, cruzando gerações desde o século XIX até os dias atuais. Escrita e protagonizada por Lígia Helena de Almeida, a peça destaca-se não apenas por sua força dramática, mas por um compromisso inegável com a inclusão, oferecendo tradução em LIBRAS e um programa de previsibilidade para neurodivergentes. Entenda as nuances desta produção que promete transformar a cena cultural do Grande ABC.
A Celebração de 20 Anos da Cia. Estrela D’Alva no Grande ABC
Produzir arte e manter uma companhia teatral ativa no Brasil é, por si só, um ato de extrema resiliência. Quando celebramos os 20 anos de fundação da Cia. Estrela D’Alva de Teatro, estamos diante de um marco histórico para a cultura do Grande ABC. Ao longo de duas décadas, a companhia reafirmou sua vocação primária: transformar o palco em um território vivo de memória, invenção e questionamento social.
A escolha do Sesc Santo André para abrigar a estreia de Urucum – As Árvores Não Têm Culpa, programada para os dias 20 e 21 de março de 2026, não é obra do acaso. A instituição (Serviço Social do Comércio) é historicamente reconhecida como um dos maiores pilares de fomento à cultura e ao bem-estar no estado de São Paulo. Para os moradores do ABC, o Sesc representa um oásis de convivência, oferecendo infraestrutura de ponta que permite que espetáculos de alta complexidade técnica e dramática sejam acessados pela comunidade trabalhadora.
A nova montagem da companhia convida o público a acompanhar a travessia de uma mulher que chegou ao seu limite e sente a urgência de sair. Sair da própria casa, sair da moldura imposta pela sociedade e, principalmente, sair da narrativa que lhe foi entregue pronta desde o nascimento. Quando a casa já não comporta o corpo e o cotidiano transborda, a inquietação vira pergunta. É exatamente como um rito de passagem visceral que a Cia. Estrela D’Alva de Teatro apresenta esta nova obra aos andreenses.
A Trama de “Urucum”: Um Mergulho nas Raízes Ancestrais
O coração pulsante de Urucum – As Árvores Não Têm Culpa reside na força de sua dramaturgia, assinada brilhantemente por Lígia Helena de Almeida. O texto nasceu de uma exaustiva pesquisa autoetnográfica — um método em que o autor utiliza a própria experiência e história familiar para compreender e descrever um fenômeno cultural e social mais amplo.
Ao revisitar as memórias de sua bisavó, de sua avó, de sua mãe e, inevitavelmente, as suas próprias, a dramaturga revela como os segredos íntimos de uma família funcionam como um espelho perfeito do nosso retrato social coletivo. A peça costura, no palco de Santo André, um panorama doloroso e ao mesmo tempo libertador das experiências femininas atravessadas por temas como colonização, migração, violência sistêmica, trabalho exaustivo, maternidade imposta e solidão.
A narrativa é dividida em quatro camadas geracionais distintas, que se entrelaçam no corpo da atriz:
A Bisavó Indígena (Século XIX): Carrega em seu corpo as marcas profundas, o silenciamento e a violência direta do processo de colonização do território brasileiro.
A Avó Nordestina: Representa uma fatia fundamental da história da nossa própria região. Ao encenar o casamento precoce, a migração e as sucessivas violências, a peça espelha a realidade de milhares de famílias que migraram do Nordeste para o Grande ABC no século passado em busca de oportunidades nas nascentes indústrias automotivas, ajudando a construir a riqueza do nosso estado com o suor de seu trabalho.
A Mãe (Século XX): A mulher moderna que se vê constantemente dividida entre as exigências do mercado de trabalho e os silenciamentos impostos por uma estrutura familiar patriarcal e conservadora.
A Moça (Século XXI): Uma mulher urbana dos nossos dias. Divorciada, trabalhadora autônoma, que luta diariamente para tentar interromper o ciclo intergeracional de dores e, finalmente, encontrar e validar a sua própria palavra.
No palco, Lígia Helena de Almeida não apenas atua; ela assume a responsabilidade de ser narradora, filha e ancestral simultaneamente, em uma encenação que articula teatro clássico, música ao vivo e uma profunda dramaturgia do corpo.
Da Palavra Impressa ao Palco: As Oficinas em Santo André
A chegada de Urucum – As Árvores Não Têm Culpa ao teatro é o ápice de um processo criativo que vem germinando há bastante tempo. Antes de ganhar os holofotes, a dramaturgia foi publicada em formato de livro físico em 2024 pela Editora Me Parió Revolução. O texto também foi democratizado através de um audiobook, garantindo que a palavra alcançasse múltiplos públicos.
Mais do que apenas ensaiar entre quatro paredes, a companhia optou por integrar a comunidade no processo. Desde 2023, o projeto integrou uma série de ações formativas e sociais, incluindo a realização de oficinas gratuitas de escrita voltadas exclusivamente para mulheres residentes em Santo André.
Estes encontros funcionaram como potentes rodas de memória e escuta sensível. Neles, outras narrativas femininas puderam emergir, criar laços e curar feridas. O espetáculo que estreia agora no Sesc surge como a continuidade natural e orgânica desse percurso formativo. É o instante mágico onde a palavra antes impressa no papel ganha volume, se transforma em corpo, produz som e divide a mesma respiração com a plateia.
Em um cenário econômico onde o custo de vida nas grandes metrópoles pressiona o orçamento familiar, a busca por entretenimento frequentemente é a primeira a ser cortada. É natural que o trabalhador pergunte: “Mas afinal, como isso afeta meu bolso?”. A resposta está na política de democratização de acesso mantida pelo Sesc e no fomento à economia local.
Assistir a uma peça de teatro de alta qualidade, com música ao vivo e dramaturgia premiada na capital paulista, pode facilmente custar entre R$ 80,00 e R$ 150,00 por pessoa, sem contar os altos custos com combustível, pedágio ou passagens metropolitanas. Em contrapartida, os ingressos para a estreia no Sesc Santo André possuem valores extremamente acessíveis.
A entrada inteira custa R$ 50,00, a meia-entrada (para estudantes, professores e idosos) sai por R$ 25,00, e para os trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo que possuem a Credencial Plena do Sesc, o valor despenca para apenas R$ 15,00.
Essa política de preços subsidiados garante que a arte não seja um artigo de luxo. A retenção desse capital na cidade gera um efeito cascata positivo: as famílias conseguem consumir cultura de ponta e ainda utilizar o dinheiro economizado para jantar nas redondezas da Vila Guiomar, pagar um motorista de aplicativo ou utilizar o transporte público local. Fomentar eventos de grande porte dentro de Santo André é uma estratégia direta para aquecer a economia local e valorizar os artistas que moram e produzem no Grande ABC.
Acessibilidade Inovadora e o Cuidado com a Comunidade
Um dos pontos mais notáveis desta temporada de Urucum – As Árvores Não Têm Culpa é o rompimento das barreiras de acesso. A Cia. Estrela D’Alva de Teatro demonstra um compromisso louvável com a inclusão social, fator que reverbera positivamente na saúde na região, ao promover bem-estar mental e pertencimento para grupos historicamente marginalizados.
Para garantir que a experiência teatral seja acolhedora e segura para todos, a produção implementou medidas rigorosas de acessibilidade:
Acessibilidade Física: O Sesc Santo André dispõe de rampas, elevadores e assentos adaptados para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida, garantindo conforto desde a entrada até o auditório de 100 lugares.
Tradução em LIBRAS: Todas as sessões (tanto na sexta-feira quanto no sábado) contarão com tradução simultânea na Língua Brasileira de Sinais, assegurando o pleno entendimento da obra pela comunidade surda.
Programa de Previsibilidade: Uma inovação fantástica! Todas as sessões contarão com um guia de previsibilidade, desenvolvido por Carla Jarra e lavi azúlys, voltado especialmente para pessoas neurodivergentes (como autistas). Esse programa antecipa gatilhos sonoros, visuais ou emocionais, permitindo que o espectador neurodivergente se prepare e desfrute da obra sem sobrecargas sensoriais imprevistas.
A Sinfonia Feminina: Ficha Técnica e Bastidores
Uma obra que fala tão profundamente sobre a essência e a linhagem feminina não poderia ter uma espinha dorsal diferente: a equipe de criação e execução é majoritariamente composta por mulheres excepcionais.
O processo criativo contou com a consultoria minuciosa da dramaturga Adélia Nicolete, que acompanhou a delicada relação entre a palavra escrita, a imagem gerada e a cena viva. A provocação da atuação foi assinada por Patrícia Gifford, enquanto a dramaturgia do movimento — essencial para expressar a carga ancestral — foi coreografada por Janette Santiago.
A música não atua como mero pano de fundo em Urucum – As Árvores Não Têm Culpa; ela é um elemento estruturante e vivo do espetáculo. Executada ao vivo, a trilha sonora amplia a tessitura simbólica da cena, guiando as emoções do público através dos ritmos e tensões das diferentes épocas retratadas.
Tabela: Ficha Técnica do Espetáculo
Função no Espetáculo
Profissional Responsável
Dramaturgia, Direção e Atuação
Lígia Helena de Almeida
Musicistas (Ao Vivo)
Camila Ruiz de Paula (piano e violão), Michelle Lomba (percussões), Vitória Lima (violino – part. especial)
Consultoria de Dramaturgia
Adélia Nicolete
Provocação da Atuação
Patrícia Gifford
Dramaturgia do Movimento
Janette Santiago
Figurino
Denise Maria Guilherme
Cenografia e Iluminação
Mauro Martorelli
Operação de Luz
Giovanna Gonçalves
Produção e Assessoria
Paulo Gircys, Marô Zamaro e Luciana Gandelini de Souza
Planejando Sua Visita: Ingressos, Transporte e Logística
O espetáculo tem classificação indicativa para maiores de 12 anos e duração enxuta e envolvente de 60 minutos. Como o espaço teatral possui capacidade intimista e limitada a 100 lugares por sessão, o planejamento antecipado é vital para não ficar de fora deste marco cultural.
O Sesc Santo André está localizado na Rua Tamarutaca, 302, na Vila Guiomar, uma região de fácil acesso no município. Para os moradores do ABC que optarem pela sustentabilidade e economia do transporte público, diversas linhas de ônibus municipais e intermunicipais atendem o entorno da unidade, além da proximidade com a estação Prefeito Celso Daniel da CPTM (sendo viável completar o trecho com uma curta corrida de aplicativo). Para quem for de carro, o local conta com estacionamento pago.
Para garantir seu lugar, siga as etapas:
Acesse o portal oficial de programação através do link fornecido pelo Sesc SP (disponível na aba de teatro da unidade Santo André) ou compareça pessoalmente às bilheterias físicas da rede.
Verifique se você possui a Credencial Plena do Sesc atualizada para ter acesso ao valor especial de R$ 15,00. Caso contrário, selecione as opções de meia-entrada (R$ 25,00) com a devida documentação comprobatória, ou entrada inteira (R$ 50,00).
Conclusão: Um Rito de Passagem Imperdível
A estreia de Urucum – As Árvores Não Têm Culpa no Sesc Santo André transcende a definição de uma simples peça teatral. O trabalho magistral da Cia. Estrela D’Alva de Teatro e a entrega absoluta de Lígia Helena de Almeida nos oferecem um espelho. Ao olhar para as histórias de bisavós indígenas e avós migrantes nordestinas, os moradores do ABC serão convidados a encarar suas próprias raízes, dores e esperanças.
Nos dias 20 e 21 de março de 2026, as luzes da Vila Guiomar se apagarão para iluminar uma jornada íntima e política. É a oportunidade de celebrar o teatro feito na nossa região, apoiar a economia local e testemunhar o momento exato em que a delicadeza convive com a denúncia, transformando a memória em um gesto de pura liberdade.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Quando e onde acontece a estreia do espetáculo “Urucum – As Árvores Não Têm Culpa”?
A estreia ocorrerá nos dias 20 de março (sexta-feira), às 20h, e 21 de março (sábado), às 19h, do ano de 2026. As apresentações serão realizadas no palco do Sesc Santo André, localizado na Rua Tamarutaca, 302, Vila Guiomar.
2. Qual é o valor dos ingressos e onde posso comprá-los?
Os ingressos custam R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 15,00 (para trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo com Credencial Plena válida). Eles podem ser adquiridos presencialmente nas bilheterias de qualquer unidade do Sesc SP ou através do portal oficial do Sesc na internet.
3. Sobre o que fala a história da peça?
A peça acompanha a jornada de uma moça urbana do século XXI que sente a necessidade urgente de romper com os ciclos da sua vida. Para encontrar seu caminho de liberdade, ela revisita, através da memória e da ancestralidade, as histórias e as dores de sua mãe, sua avó nordestina migrante e sua bisavó indígena. A obra aborda temas como colonização, maternidade, trabalho e o papel da mulher na sociedade.
4. A peça oferece algum recurso de acessibilidade para o público?
Sim, o espetáculo é altamente inclusivo. Ambas as sessões contarão com tradução simultânea em LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) e oferecerão um Programa de Previsibilidade elaborado especialmente para orientar e acolher pessoas neurodivergentes. O espaço também possui acessibilidade física para cadeirantes.
5. O espetáculo é indicado para crianças?
A classificação etária oficial do espetáculo é estipulada para maiores de 12 anos, devido à complexidade e densidade dos temas históricos e sociais abordados durante os 60 minutos de duração da encenação.
Informações Oficiais e Bastidores: Instagram da Cia. Estrela D’Alva de Teatro (@ciaestreladalva) e da dramaturga (@aligia_helena).
Contexto Histórico da Região do ABC Paulista e Imigração: Acervo do Museu de Santo André Dr. Octaviano Armando Gaiarsa.
Compartilhe:
OPINIÃO
ABCTudo Paulista
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.