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Da redação
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Publicado em: 09 de junho de 2020
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Atualizado em: 13 de dezembro de 2025
Desde o início da pandemia, aprendemos que a COVID-19 é muito mais do que uma doença respiratória. O coronavírus mostrou-se capaz de invadir e afetar múltiplos sistemas do corpo, incluindo, de forma preocupante, o sistema nervoso. Este artigo mergulha nos sintomas neurológicos do COVID-19, explorando desde as manifestações mais comuns e leves, como a perda de olfato e paladar, até quadros graves e complexos como AVCs, encefalites e a síndrome de Guillain-Barré. Com base em estudos científicos e relatos médicos, detalhamos como o vírus age no cérebro e no sistema nervoso periférico, e quais são os sinais de alerta que não devem ser ignorados, seja durante a fase aguda da infecção ou no período de recuperação pós-COVID.
Sintomas Neurológicos do COVID-19: Quando o Vírus Ataca o Sistema Nervoso
Quem viveu o início de 2020 no Brasil lembra bem da incerteza. A princípio, o novo coronavírus, o SARS-CoV-2, era encarado majoritariamente como um inimigo dos pulmões. As notícias falavam de falta de ar, tosse e febre. No entanto, à medida que os meses passavam e os casos se multiplicavam, médicos e pacientes começaram a notar algo estranho: o vírus não se limitava ao sistema respiratório. Ele tinha a capacidade assustadora de afetar a nossa central de comando: o sistema nervoso.
O reconhecimento dos sintomas neurológicos do COVID-19 foi um marco na compreensão da doença. Descobriu-se que uma parcela significativa dos pacientes infectados apresentava manifestações que iam além do trato respiratório. Um estudo chave publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) analisou 214 pacientes hospitalizados em Wuhan, na China, e revelou que 36,4% deles tiveram algum tipo de sintoma neurológico. Esses sintomas variam drasticamente em gravidade, indo desde um leve desconforto até condições com risco de vida.
Mas por que um vírus respiratório afeta o cérebro? A resposta ainda está sendo mapeada, mas sabemos que os receptores ECA2, a “porta de entrada” que o vírus usa para invadir as células, também estão presentes em tecidos do sistema nervoso. Isso permite que o vírus potencialmente atravesse a barreira hematoencefálica ou afete os nervos diretamente.
Os Sintomas Neurológicos Mais Comuns e “Leves”
Vamos começar pelo que a maioria das pessoas conhece ou até já sentiu. Muitos sintomas neurológicos surgem no início da infecção e são, para alguns, os primeiros sinais de alerta da COVID-19.
Perda de Olfato e Paladar: A Assinatura da COVID-19
Talvez o sintoma neurológico mais emblemático desta pandemia seja a anosmia (perda do olfato) e a ageusia (perda do paladar). Ao contrário de um resfriado comum onde o nariz entupido bloqueia o cheiro, na COVID-19, a perda é súbita e ocorre mesmo sem congestão nasal.
Estudos indicam que isso acontece porque o vírus ataca as células de suporte no epitélio olfativo (no nariz), causando uma disfunção temporária nos neurônios sensoriais que enviam os sinais de cheiro para o cérebro. Para muitos, esses sentidos retornam em semanas, mas para um grupo significativo, a recuperação pode levar meses ou ser incompleta, resultando em parosmia (distorção dos cheiros, onde coisas agradáveis passam a cheirar mal).
Dor de Cabeça e Tontura
A dor de cabeça associada à COVID-19 é frequentemente descrita como intensa, pulsante e resistente a analgésicos comuns. Junto com ela, a tontura (vertigem) é outra queixa frequente, podendo ser debilitante e indicando uma possível inflamação no ouvido interno ou no tronco cerebral.
Mialgia e Fadiga Extrema
A mialgia (dor muscular) intensa é comum e pode ser um sinal de que o vírus está causando danos às fibras musculares, que são controladas pelo sistema nervoso. Já a fadiga extrema, aquela sensação de que o corpo foi “atropelado por um caminhão”, vai além do cansaço físico e tem uma forte componente neurológica, muitas vezes persistindo por meses na chamada “COVID Longa”.
O Perigo Real: Manifestações Neurológicas Graves
É aqui que a situação se torna crítica. Em uma minoria de casos, geralmente em pacientes com quadros respiratórios mais severos ou com comorbidades pré-existentes, o coronavírus pode desencadear condições neurológicas devastadoras. É fundamental estar atento a esses sinais, pois eles exigem atendimento médico de emergência.
Acidente Vascular Cerebral (AVC)
A COVID-19 provoca um estado de hipercoagulabilidade no corpo, ou seja, o sangue coagula mais facilmente. Isso aumenta o risco de formação de coágulos (trombos) que podem viajar até o cérebro e bloquear o fluxo sanguíneo, causando um AVC isquêmico. O preocupante é que isso tem sido observado até mesmo em pacientes jovens e sem fatores de risco clássicos para derrame. Os sinais de alerta incluem fraqueza súbita em um lado do corpo, dificuldade na fala e assimetria facial.
A encefalite é a inflamação do próprio tecido cerebral, enquanto a meningite é a inflamação das membranas que o revestem. Ambas podem ser causadas pela invasão direta do vírus ou pela resposta inflamatória exagerada do corpo (tempestade de citocinas). Os sintomas incluem febre alta, dor de cabeça severa, rigidez na nuca, confusão mental, convulsões e, em casos graves, coma.
Síndrome de Guillain-Barré
Esta é uma doença autoimune rara onde o sistema imunológico, ao tentar combater o vírus, ataca por engano a bainha de mielina que protege os nervos periféricos. Isso leva a uma fraqueza muscular progressiva e paralisia que geralmente começa nas pernas e sobe pelo corpo. Se atingir os músculos respiratórios, pode ser fatal e exigir ventilação mecânica.
Encefalopatia Aguda
Este termo guarda-chuva refere-se a um estado de disfunção cerebral global. Pacientes hospitalizados, especialmente idosos na UTI, podem apresentar delírio, agitação extrema, perda de memória e alterações de consciência. É um sinal de mau prognóstico e está frequentemente associado à hipóxia (falta de oxigênio no cérebro) e à inflamação sistêmica grave.
Como o Coronavírus Ataca o Sistema Nervoso?
A ciência ainda está montando esse quebra-cabeça, mas existem três vias principais pelas quais se acredita que o SARS-CoV-2 causa danos neurológicos:
Invasão Direta: O vírus pode viajar do nariz para o cérebro através do nervo olfativo ou cruzar a barreira hematoencefálica através do sangue.
Resposta Inflamatória Descontrolada: A famosa “tempestade de citocinas”, onde o sistema imune reage exageradamente à infecção, pode causar inflamação generalizada no corpo, incluindo no cérebro, danificando tecidos e vasos sanguíneos.
Complicações Sistêmicas: Problemas graves em outros órgãos, como a falta de oxigênio severa causada pela pneumonia (hipóxia) ou a falência renal, afetam indiretamente o funcionamento do cérebro.
Tabela: Resumo dos Sintomas Neurológicos do COVID-19
Para facilitar a visualização, separamos os sintomas por sistema afetado:
Perda de olfato (Anosmia), Perda de paladar (Ageusia), Dor muscular (Mialgia).
Síndrome de Guillain-Barré, Dor neuropática intensa.
Mas afinal, como isso me afeta no longo prazo?
Esta é a pergunta que assombra milhões de pessoas ao redor do mundo. Muitos pacientes que se recuperam da fase aguda da COVID-19 continuam a sofrer com sequelas neurológicas por semanas ou meses, uma condição conhecida como Síndrome Pós-COVID ou “COVID Longa”.
Os sintomas mais relatados incluem a persistência da fadiga, dores de cabeça, dificuldades de concentração e memória (conhecido como “nevoeiro cerebral”), distúrbios do sono, ansiedade e depressão. Essas condições têm um impacto profundo na qualidade de vida, na capacidade de trabalho e na saúde na região, sobrecarregando os sistemas de saúde com demandas crônicas.
O reconhecimento precoce dos sintomas neurológicos do COVID-19 é vital. Se você ou alguém próximo apresentar sinais neurológicos graves, como fraqueza súbita, convulsões ou confusão mental severa, procure atendimento médico de emergência imediatamente. Para sintomas persistentes e leves pós-infecção, o acompanhamento com um neurologista é fundamental para gerenciar o quadro e buscar reabilitação.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Todos os pacientes com COVID-19 desenvolvem sintomas neurológicos?
Não. Embora sejam comuns, nem todas as pessoas infectadas apresentarão sintomas neurológicos. A gravidade e a presença desses sintomas variam muito de pessoa para pessoa.
Na maioria dos casos, não. Esses sentidos tendem a retornar gradualmente em algumas semanas. No entanto, para uma porcentagem menor de pacientes, a recuperação pode levar meses ou ser incompleta, podendo ocorrer distorções (parosmia).
3. O COVID-19 pode causar demência ou doenças como Alzheimer?
Ainda é cedo para afirmar com certeza. No entanto, há preocupação na comunidade científica de que a inflamação cerebral causada pelo vírus possa acelerar processos neurodegenerativos ou aumentar o risco de demência a longo prazo, especialmente em idosos. Estudos de longa duração estão em andamento para investigar essa possibilidade.
4. Devo procurar um neurologista se tive COVID-19?
Se você teve sintomas leves e se recuperou totalmente, não é necessário. No entanto, se você apresenta sintomas neurológicos persistentes como “nevoeiro cerebral”, dores de cabeça crônicas, fadiga intensa, formigamentos ou fraqueza muscular semanas após a infecção, é altamente recomendado buscar uma avaliação com um neurologista.
5. O que é o “nevoeiro cerebral” (brain fog)?
É um termo não médico usado para descrever um conjunto de sintomas cognitivos persistentes após a COVID-19, incluindo dificuldade de concentração, problemas de memória de curto prazo, lentidão de raciocínio e confusão mental.
Referências:
JAMA Neurology. “Neurologic Manifestations of Hospitalized Patients With Coronavirus Disease 2019 in Wuhan, China.” (Estudo factual de 2020 base para os dados de incidência).
Organização Mundial da Saúde (OMS). Informações sobre COVID-19 e suas manifestações clínicas.
Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Diretrizes e notas técnicas sobre manifestações neurológicas da COVID-19.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui o diagnóstico feito em consulta médica.
Em caso de dúvidas ou aparecimento de sintomas mencionados neste artigo procure um profissional de saúde qualificado para obter um diagnóstico preciso.
Lembre-se a automedicação pode ocasionar graves complicações.
OPINIÃO
ABCTudo Paulista
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.