Tabu ainda atrasa o cuidado no ABC

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Por Danillo Leite
  •   Publicado em: 12 de setembro de 2026

Tabu e preconceito ainda seguram quem precisa de atendimento psicológico e psiquiátrico. Neste Setembro Amarelo, a psiquiatra Mariana Cornachini Azevedo, do Hospital Santa Helena, em Santo André, descreve o aumento da procura, os sinais de perda de funcionalidade e o risco de interromper o tratamento sozinho. Os CAPS seguem como porta gratuita. Diadema registrou 1.280 atendimentos em 2026 até o fechamento. Rio Grande da Serra fez 1.270 consultas psiquiátricas de janeiro a agosto. Ribeirão Pires informou 2.232 novos atendimentos, sem precisar o período. O CVV atende pelo 188, 24 horas. Mauá, São Caetano, São Bernardo e Santo André não responderam à reportagem.

Tabu ainda atrasa o cuidado no ABC

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O Setembro Amarelo existe no Brasil desde 2015 para falar de prevenção ao suicídio sem transformar a conversa em silêncio. Em 2026, o CVV trabalha o tema “Escutar é estar presente”. No Grande ABC, a entrevista do RD com a psiquiatra Mariana descreve o mesmo movimento em duas direções. De um lado, mais gente atravessa a porta do consultório. De outro, ainda há quem chame a dor de frescura ou tema o julgamento dentro da sala. Os dois fatos cabem na mesma cidade e no mesmo mês amarelo.

Mariana liga o aumento da procura a três fatores que ela nomeia: a redução do estigma em torno dos transtornos mentais, a disseminação de informações e os efeitos da pandemia de covid-19. “Parte da população perdeu o medo de procurar ajuda e de ir atrás de se cuidar.” O isolamento, o luto e o medo de contágio, no recorte dela, funcionaram como gatilho para quadros de ansiedade e depressão. As redes sociais entram sobretudo entre os jovens. “Pode ser desconstrutivo, porque gera frustração e comparação, além de um impacto negativo na autoestima.”

O que sobra de tabu não é detalhe. “Existem pessoas que não aceitam estar doentes emocionalmente porque acham que isso é frescura”, afirma. Outras deixam de procurar ajuda porque acham que serão julgadas no consultório. A resposta da médica é a medida do próprio ofício: cada um tem a sua dor, cada pessoa responde de uma forma. O que para um não é nada, para o outro é muito. Depende da resposta ao que acontece no dia a dia e nos ambientes em que a pessoa vive.

Os sinais que a rotina denuncia

A perda de funcionalidade é o critério que Mariana usa para separar um dia ruim de um quadro que pede acompanhamento. Não conseguir trabalhar, estudar, dormir ou comer. Passar a comer em excesso. Isolar-se. Adotar comportamento de risco, como uso excessivo de álcool e drogas ou automutilação. São situações que, na avaliação dela, indicam que o paciente precisa de ajuda.

Mudança de comportamento e isolamento também servem de alerta para familiar e amigo. Nesses casos, a entrevista aponta apoio, escuta e acolhimento sem julgamento. Comentário sobre não ver sentido em estar vivo indica atenção e busca por ajuda profissional.

A frequência dos sintomas ajuda a diferenciar reação passageira de situação que exige consultório. O paciente precisa perceber se a tristeza, a ansiedade ou o estresse estão presentes na maior parte do tempo ou se vêm de uma situação pontual. A persistência, alerta a psiquiatra, pode comprometer a capacidade de fazer o básico. “Caso não busque ajuda, vai chegar um momento em que o paciente pode não conseguir levantar da cama.”

Sinais citados na entrevista:

  • Não conseguir trabalhar, estudar, dormir ou se alimentar — ou comer em excesso.
  • Isolamento e mudança de comportamento percebida por quem convive.
  • Uso excessivo de álcool e drogas ou automutilação.
  • Fala sobre não ver sentido em estar vivo.
  • Sintomas presentes na maior parte do tempo, não só num episódio pontual.

Em crise intensa, quando a pessoa não controla os sintomas ou apresenta comportamento de risco, a reportagem indica atendimento de urgência. O acompanhamento psicológico e psiquiátrico, no mesmo texto, entra como via para controle de sintomas e prevenção de nova crise.

A primeira consulta e o tratamento

A primeira consulta psiquiátrica, segundo Mariana, é uma avaliação detalhada do histórico e do contexto de vida. O objetivo é compreender os sintomas e os fatores ligados ao quadro. Muitas vezes há investigação da infância e da adolescência. Quando indicado, pede-se avaliação neuropsicológica.

O tratamento psiquiátrico não começa, necessariamente, no medicamento. A psicoterapia pode ser suficiente em alguns casos. Em outros, combina-se remédio e psicoterapia. A atividade física, diz a médica, também ajuda no controle dos sintomas. O ponto que ela marca com ênfase é a interrupção por conta própria: pode causar sintomas de abstinência e trazer de volta o que o tratamento estava contendo.

A reportagem original registra, ao final, uma opção de avaliação neurológica com o Dr. Willian Rezende, que atende em Moema, em São Paulo, na Clínica Regenerati, com equipe multidisciplinar. O médico é neurologista, CRM-SP 160.140, diretor clínico da clínica na Avenida Ibirapuera, 2907. O site da clínica descreve atendimento particular para adultos e consulta de uma hora.

A rede gratuita que o ABC já tem

O caminho público descrito na matéria são os Centros de Atenção Psicossocial. O CAPS é serviço especializado, gratuito e de caráter comunitário. O atendimento depende da avaliação de cada usuário e pode incluir acolhimento e avaliação inicial, consulta médica e psiquiátrica, acompanhamento psicológico e multiprofissional, atividade e atendimento em grupo.

Os CAPS também oferecem oficina terapêutica, reabilitação psicossocial, acompanhamento em crise, elaboração e seguimento do Projeto Terapêutico Singular, orientação a familiar e atendimento domiciliar. Quando preciso, a equipe articula com UBS, serviço de urgência e emergência e outros equipamentos da rede.

Três cidades enviaram número até o fechamento:

CidadeDado informadoPeríodo
Diadema1.280 atendimentos nos CAPS2026, até o fechamento
Rio Grande da Serra1.270 consultas psiquiátricasjaneiro a agosto de 2026
Ribeirão Pires2.232 novos atendimentos nos CAPSperíodo não especificado

Mauá, São Caetano do Sul, São Bernardo do Campo e Santo André não responderam.

A ausência de resposta não apaga a rede. Diadema inaugurou em fevereiro de 2026 sede nova do CAPS Álcool e Drogas, com serviço 24 horas e aumento de leitos de cinco para 12, no mesmo complexo do CAPS Infantojuvenil e do CAPS Sul-Oeste. Ribeirão Pires inaugurou, no mesmo mês, sede própria do CAPS AD na Rua Virgílio Gola, com capacidade estimada de cerca de 1,7 mil atendimentos mensais e 400 pacientes ativos. Rio Grande da Serra mantém o CAPS na Rua Prefeito José Carlos Carlson, 7, Centro, de segunda a sexta, das 8h às 17h. Em 2024, o Diário do Grande ABC já havia listado ao menos 17 unidades na região, com endereços em Santo André, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Santo André, naquela lista, tinha unidades no Centro, na Vila Guiomar, na Vila Vitória e no Parque das Nações, com acolhimento das 8h às 18h sem agendamento prévio.

Em crise emocional, a reportagem aponta o Centro de Valorização da Vida. O CVV recebe, no texto original, mais de 5 mil ligações por dia no Brasil. O telefone é o 188, gratuito, 24 horas. Há chat e e-mail no site cvv.org.br. Em 2025, a entidade divulgou cerca de 2 milhões de atendimentos, média de 5,5 mil conversas por dia, com cerca de 3,2 mil voluntários. O 188 oferece escuta e acolhimento sigilosos. Não substitui o CAPS nem o pronto-socorro. Coexiste com os dois.

Quem cresceu no ABC conhece a fila da UBS e o costume de guardar o que dói. O Setembro Amarelo deste ano não inventa a rede. Descreve a porta que já existe — CAPS, UBS, urgência, 188 — e o critério que a psiquiatra de Santo André usa no consultório: quando a rotina para, o quadro deixou de ser pontual.

A procura aumentou. O tabu não sumiu. Os números que chegaram até o fechamento da matéria mostram movimento em Diadema, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires. Os números que não chegaram, das outras quatro cidades, deixam um buraco na conta regional. A escuta, no tema da campanha de 2026, começa antes do formulário da prefeitura. Começa quando alguém ao lado reconhece o isolamento, a cama que não levanta e a frase sobre não ver sentido — e não trata isso como frescura.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Quais sinais a psiquiatra cita como alerta? Perda de funcionalidade no trabalho, estudo, sono e alimentação, isolamento, comportamento de risco e sintomas presentes na maior parte do tempo.

2. Comentário sobre não ver sentido em viver pede o quê? Atenção e busca por ajuda profissional, segundo a entrevista. Em crise intensa, atendimento de urgência.

3. Todo tratamento psiquiátrico usa remédio? Não. Mariana afirma que a psicoterapia pode bastar em alguns casos e que, em outros, combina-se medicamento e psicoterapia. Atividade física também entra no controle dos sintomas.

4. Por que não interromper o tratamento sozinho? A psiquiatra alerta que a interrupção por conta própria pode causar sintomas de abstinência e o retorno dos sintomas.

5. Onde há atendimento gratuito no ABC? Nos CAPS. Diadema, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires enviaram números à reportagem. Mauá, São Caetano, São Bernardo e Santo André não responderam até o fechamento.

6. O que é o 188? É o telefone do CVV, gratuito e 24 horas, para escuta e acolhimento em sofrimento emocional. Também há chat e e-mail em cvv.org.br.

Referências

Setembro Amarelo, saúde mental, CAPS, Santo André, Grande ABC, CVV, 188, Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra

ATENÇÃO

Conteúdo informativo, não substitui médico

Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui o diagnóstico feito em consulta médica.
Em caso de dúvidas ou aparecimento de sintomas mencionados neste artigo procure um profissional de saúde qualificado para obter um diagnóstico preciso.
Lembre-se a automedicação pode ocasionar graves complicações.


OPINIÃO

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.

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