Tabu e preconceito ainda seguram quem precisa de atendimento psicológico e psiquiátrico. Neste Setembro Amarelo, a psiquiatra Mariana Cornachini Azevedo, do Hospital Santa Helena, em Santo André, descreve o aumento da procura, os sinais de perda de funcionalidade e o risco de interromper o tratamento sozinho. Os CAPS seguem como porta gratuita. Diadema registrou 1.280 atendimentos em 2026 até o fechamento. Rio Grande da Serra fez 1.270 consultas psiquiátricas de janeiro a agosto. Ribeirão Pires informou 2.232 novos atendimentos, sem precisar o período. O CVV atende pelo 188, 24 horas. Mauá, São Caetano, São Bernardo e Santo André não responderam à reportagem.
O Setembro Amarelo existe no Brasil desde 2015 para falar de prevenção ao suicídio sem transformar a conversa em silêncio. Em 2026, o CVV trabalha o tema “Escutar é estar presente”. No Grande ABC, a entrevista do RD com a psiquiatra Mariana descreve o mesmo movimento em duas direções. De um lado, mais gente atravessa a porta do consultório. De outro, ainda há quem chame a dor de frescura ou tema o julgamento dentro da sala. Os dois fatos cabem na mesma cidade e no mesmo mês amarelo.
Mariana liga o aumento da procura a três fatores que ela nomeia: a redução do estigma em torno dos transtornos mentais, a disseminação de informações e os efeitos da pandemia de covid-19. “Parte da população perdeu o medo de procurar ajuda e de ir atrás de se cuidar.” O isolamento, o luto e o medo de contágio, no recorte dela, funcionaram como gatilho para quadros de ansiedade e depressão. As redes sociais entram sobretudo entre os jovens. “Pode ser desconstrutivo, porque gera frustração e comparação, além de um impacto negativo na autoestima.”
O que sobra de tabu não é detalhe. “Existem pessoas que não aceitam estar doentes emocionalmente porque acham que isso é frescura”, afirma. Outras deixam de procurar ajuda porque acham que serão julgadas no consultório. A resposta da médica é a medida do próprio ofício: cada um tem a sua dor, cada pessoa responde de uma forma. O que para um não é nada, para o outro é muito. Depende da resposta ao que acontece no dia a dia e nos ambientes em que a pessoa vive.
Os sinais que a rotina denuncia
A perda de funcionalidade é o critério que Mariana usa para separar um dia ruim de um quadro que pede acompanhamento. Não conseguir trabalhar, estudar, dormir ou comer. Passar a comer em excesso. Isolar-se. Adotar comportamento de risco, como uso excessivo de álcool e drogas ou automutilação. São situações que, na avaliação dela, indicam que o paciente precisa de ajuda.
Mudança de comportamento e isolamento também servem de alerta para familiar e amigo. Nesses casos, a entrevista aponta apoio, escuta e acolhimento sem julgamento. Comentário sobre não ver sentido em estar vivo indica atenção e busca por ajuda profissional.
A frequência dos sintomas ajuda a diferenciar reação passageira de situação que exige consultório. O paciente precisa perceber se a tristeza, a ansiedade ou o estresse estão presentes na maior parte do tempo ou se vêm de uma situação pontual. A persistência, alerta a psiquiatra, pode comprometer a capacidade de fazer o básico. “Caso não busque ajuda, vai chegar um momento em que o paciente pode não conseguir levantar da cama.”
Sinais citados na entrevista:
Não conseguir trabalhar, estudar, dormir ou se alimentar — ou comer em excesso.
Isolamento e mudança de comportamento percebida por quem convive.
Sintomas presentes na maior parte do tempo, não só num episódio pontual.
Em crise intensa, quando a pessoa não controla os sintomas ou apresenta comportamento de risco, a reportagem indica atendimento de urgência. O acompanhamento psicológico e psiquiátrico, no mesmo texto, entra como via para controle de sintomas e prevenção de nova crise.
A primeira consulta e o tratamento
A primeira consulta psiquiátrica, segundo Mariana, é uma avaliação detalhada do histórico e do contexto de vida. O objetivo é compreender os sintomas e os fatores ligados ao quadro. Muitas vezes há investigação da infância e da adolescência. Quando indicado, pede-se avaliação neuropsicológica.
O tratamento psiquiátrico não começa, necessariamente, no medicamento. A psicoterapia pode ser suficiente em alguns casos. Em outros, combina-se remédio e psicoterapia. A atividade física, diz a médica, também ajuda no controle dos sintomas. O ponto que ela marca com ênfase é a interrupção por conta própria: pode causar sintomas de abstinência e trazer de volta o que o tratamento estava contendo.
A reportagem original registra, ao final, uma opção de avaliação neurológica com o Dr. Willian Rezende, que atende em Moema, em São Paulo, na Clínica Regenerati, com equipe multidisciplinar. O médico é neurologista, CRM-SP 160.140, diretor clínico da clínica na Avenida Ibirapuera, 2907. O site da clínica descreve atendimento particular para adultos e consulta de uma hora.
A rede gratuita que o ABC já tem
O caminho público descrito na matéria são os Centros de Atenção Psicossocial. O CAPS é serviço especializado, gratuito e de caráter comunitário. O atendimento depende da avaliação de cada usuário e pode incluir acolhimento e avaliação inicial, consulta médica e psiquiátrica, acompanhamento psicológico e multiprofissional, atividade e atendimento em grupo.
Os CAPS também oferecem oficina terapêutica, reabilitação psicossocial, acompanhamento em crise, elaboração e seguimento do Projeto Terapêutico Singular, orientação a familiar e atendimento domiciliar. Quando preciso, a equipe articula com UBS, serviço de urgência e emergência e outros equipamentos da rede.
Três cidades enviaram número até o fechamento:
Cidade
Dado informado
Período
Diadema
1.280 atendimentos nos CAPS
2026, até o fechamento
Rio Grande da Serra
1.270 consultas psiquiátricas
janeiro a agosto de 2026
Ribeirão Pires
2.232 novos atendimentos nos CAPS
período não especificado
Mauá, São Caetano do Sul, São Bernardo do Campo e Santo André não responderam.
A ausência de resposta não apaga a rede. Diadema inaugurou em fevereiro de 2026 sede nova do CAPS Álcool e Drogas, com serviço 24 horas e aumento de leitos de cinco para 12, no mesmo complexo do CAPS Infantojuvenil e do CAPS Sul-Oeste. Ribeirão Pires inaugurou, no mesmo mês, sede própria do CAPS AD na Rua Virgílio Gola, com capacidade estimada de cerca de 1,7 mil atendimentos mensais e 400 pacientes ativos. Rio Grande da Serra mantém o CAPS na Rua Prefeito José Carlos Carlson, 7, Centro, de segunda a sexta, das 8h às 17h. Em 2024, o Diário do Grande ABC já havia listado ao menos 17 unidades na região, com endereços em Santo André, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Santo André, naquela lista, tinha unidades no Centro, na Vila Guiomar, na Vila Vitória e no Parque das Nações, com acolhimento das 8h às 18h sem agendamento prévio.
Em crise emocional, a reportagem aponta o Centro de Valorização da Vida. O CVV recebe, no texto original, mais de 5 mil ligações por dia no Brasil. O telefone é o 188, gratuito, 24 horas. Há chat e e-mail no site cvv.org.br. Em 2025, a entidade divulgou cerca de 2 milhões de atendimentos, média de 5,5 mil conversas por dia, com cerca de 3,2 mil voluntários. O 188 oferece escuta e acolhimento sigilosos. Não substitui o CAPS nem o pronto-socorro. Coexiste com os dois.
Quem cresceu no ABC conhece a fila da UBS e o costume de guardar o que dói. O Setembro Amarelo deste ano não inventa a rede. Descreve a porta que já existe — CAPS, UBS, urgência, 188 — e o critério que a psiquiatra de Santo André usa no consultório: quando a rotina para, o quadro deixou de ser pontual.
A procura aumentou. O tabu não sumiu. Os números que chegaram até o fechamento da matéria mostram movimento em Diadema, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires. Os números que não chegaram, das outras quatro cidades, deixam um buraco na conta regional. A escuta, no tema da campanha de 2026, começa antes do formulário da prefeitura. Começa quando alguém ao lado reconhece o isolamento, a cama que não levanta e a frase sobre não ver sentido — e não trata isso como frescura.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Quais sinais a psiquiatra cita como alerta? Perda de funcionalidade no trabalho, estudo, sono e alimentação, isolamento, comportamento de risco e sintomas presentes na maior parte do tempo.
2. Comentário sobre não ver sentido em viver pede o quê? Atenção e busca por ajuda profissional, segundo a entrevista. Em crise intensa, atendimento de urgência.
3. Todo tratamento psiquiátrico usa remédio? Não. Mariana afirma que a psicoterapia pode bastar em alguns casos e que, em outros, combina-se medicamento e psicoterapia. Atividade física também entra no controle dos sintomas.
4. Por que não interromper o tratamento sozinho? A psiquiatra alerta que a interrupção por conta própria pode causar sintomas de abstinência e o retorno dos sintomas.
5. Onde há atendimento gratuito no ABC? Nos CAPS. Diadema, Rio Grande da Serra e Ribeirão Pires enviaram números à reportagem. Mauá, São Caetano, São Bernardo e Santo André não responderam até o fechamento.
6. O que é o 188? É o telefone do CVV, gratuito e 24 horas, para escuta e acolhimento em sofrimento emocional. Também há chat e e-mail em cvv.org.br.
Setembro Amarelo, saúde mental, CAPS, Santo André, Grande ABC, CVV, 188, Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra
Compartilhe:
ATENÇÃO
Conteúdo informativo, não substitui médico
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui o diagnóstico feito em consulta médica.
Em caso de dúvidas ou aparecimento de sintomas mencionados neste artigo procure um profissional de saúde qualificado para obter um diagnóstico preciso.
Lembre-se a automedicação pode ocasionar graves complicações.
OPINIÃO
ABCTudo Paulista
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ABCTudo/IT9.